Entre o projeto-piloto e a política pública
Portugal gosta de projetos-piloto.
Na saúde, na educação, na mobilidade, na transição digital ou na modernização administrativa, multiplicam-se experiências, laboratórios, programas temporários e soluções testadas em pequena escala.
Antes de alterar um serviço público que chega a milhares de pessoas, é prudente experimentar. Perceber se uma ideia funciona, corrigir erros, medir resultados e identificar riscos.
Um projeto-piloto é uma ferramenta útil.
O problema começa quando deixa de ser uma etapa e passa a ser uma forma permanente de governar.
Há projetos que produzem bons resultados. Outros falham. Ambos podem ser úteis, desde que permitam aprender e conduzam a uma decisão.
Mas demasiadas experiências terminam exatamente onde começaram: Numa apresentação.
Durante alguns meses, uma equipa mobiliza-se, os profissionais aderem, os utilizadores participam e os primeiros indicadores parecem positivos. Produz-se um relatório, realiza-se uma sessão pública e anuncia-se que o projeto foi um sucesso.
Depois, termina o financiamento. Muda o responsável. Surge uma dificuldade de contratação. A equipa dispersa-se e o serviço regressa ao funcionamento anterior.
O conhecimento não desaparece completamente. Fica guardado numa pasta, num relatório ou na memória das pessoas que participaram. O que raramente acontece é transformar-se numa decisão capaz de mudar o sistema.
Meses mais tarde, outra instituição inicia uma experiência semelhante.
Volta a estudar o mesmo problema. Volta a contratar apoio. Volta a testar uma solução parecida. E, muitas vezes, volta a encontrar exatamente os mesmos obstáculos.
O Estado acaba por pagar várias vezes para aprender a mesma coisa.
Portugal não tem falta de inovação.
Tem excesso de começos e escassez de decisões.
Esta dificuldade é particularmente visível nas áreas em que a tecnologia avança mais depressa do que a capacidade de resposta das instituições. A inteligência artificial é hoje o exemplo mais evidente, mas está longe de ser o único.
Existem empresas com soluções maduras, universidades e centros de investigação capazes, profissionais disponíveis para testar novas abordagens e serviços públicos interessados em melhorar.
O país consegue experimentar.
O que ainda não consegue fazer, de forma consistente, é transformar aquilo que funciona numa........
