A Condição Humana depois da Condição Humana
O livro de Hanna Arendt, A Condição Humana (Relógio d’Água, 2001) coloca-nos em face de algumas palavras, de alguns conceitos que, neste tempo acéfalo e digital em que nos encontramos, convém lembrar. Ao distinguir entre «Vida Activa» e «Vida Contemplativa», Arendt considera que é a vita activa (o labor, o trabalho e a ação) o que define o humano nas suas fundações.
O labor é a atividade correspondente ao processo biológico humano – o seu corpo e metabolismo, do nascimento ao declínio – e, por isso, o labor é a vida em si. O trabalho é o artificialismo da existência humana: «a condição do trabalho é a mundanidade», escreve. A ação, por sua vez, é o exercício direto entre os homens, sem mediação das coisas. É a «pluralidade» e, como o Homem vive sobre a Terra, todos os aspetos da sua ação dizem respeito à polis. No latim, para os romanos, é essa pluralidade que define o próprio ideal político e, consequentemente, o ideal de vida: viver é «estar entre os homens» e morrer é «deixar de estar entre os homens», o que, no fundo, faria aproximar-se a ideia de vida da ideia de política, pois ser-se homo politicus seria já participar das coisas do Homem; coisas que, na tradição cristã, depois da criação do Homem (Adam) devem a sua existência à multiplicação, energia mesma da ação.
Portanto, para a autora de Eichmann em Jerusalém «a acção, na medida em que se empenha em fundar e preservar os corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a História» (p.21). Se a natalidade e mortalidade são os eixos da vida humana – ser mortal rodeado de imortalidade, desde os deuses ao Deus dos monoteísmos – vale dizer que o........
