Carbono: o bicho-papão
Sempre que o preço da eletricidade sobe na Europa, repete-se o mesmo reflexo político: questionam-se os fundamentos do mercado elétrico, discute-se suspender o sistema europeu de carbono e multiplicam-se propostas de intervenção direta nos preços. Nas últimas semanas, a nova subida do preço do gás (da ordem de 50% em cerca de 10 dias) voltou a desencadear esse debate público. Os alvos, esses, são os do costume: o mercado de carbono (EU ETS) e a hipótese de impor limites administrativos ao preço do gás.
O problema é que esta discussão está, em grande medida, a atacar o sintoma errado. Os dados mais recentes mostram que os choques nos preços da eletricidade continuam a ser explicados sobretudo pelo gás natural, não pelo carbono. A subida do preço do gás nas últimas semanas aumentou em mais de 50% o custo de produção em centrais a gás, com um impacto no preço da eletricidade aproximadamente duas vezes superior ao custo do carbono. Mesmo num contexto de preços de CO₂ elevados, a principal fonte de volatilidade no mercado elétrico continua a ser a dependência europeia de combustíveis fósseis importados.
Isto não deveria surpreender ninguém que conheça o funcionamento do sistema elétrico europeu. O mercado opera com base em preços marginais: a tecnologia mais cara necessária para satisfazer a procura em cada momento define o preço de mercado. Em muitos períodos de mercado, essa tecnologia continua a ser a geração a gás. Quando o gás sobe, a eletricidade sobe com ele. Não se trata de eliminar o gás do sistema energético uma vez que ele deve continuar a desempenhar um papel........
