A arquitetura do cinzentismo e das luzes brancas
Há uma tendência que se está a espalhar silenciosamente pelas nossas vilas e cidades. Casas novas, moradias antigas restauradas, edifícios que renascem de obras de reabilitação: quase todos parecem obedecer à mesma receita. Paredes brancas, revestimentos cinzentos, caixilharias antracite, portas escuras e, para completar o cenário, iluminação de um branco intenso, frio e uniforme. Como se a modernidade tivesse passado a ter apenas duas cores e um único tipo de luz.
Basta percorrer algumas das nossas ruas para perceber esta transformação. Onde antes existiam diferentes tonalidades, texturas, materiais e pequenos pormenores que davam personalidade às construções, encontramos cada vez mais fachadas semelhantes. Mudam as dimensões, os volumes e os proprietários, mas a paleta cromática parece ter sido escolhida a partir do mesmo catálogo.
Será esta uma evolução natural da arquitetura ou estaremos perante uma preocupante uniformização da paisagem construída?
A modernidade não tem de ser cinzenta.
É evidente que o branco e o cinzento podem produzir resultados arquitetónicos elegantes. A arquitetura contemporânea tem todo o direito de experimentar novas formas, materiais e linguagens. O problema não está na utilização destas cores, mas na sua transformação numa espécie de escolha automática, quase obrigatória, como se qualquer alternativa fosse sinónimo de desatualização.
O branco tornou-se uma aposta segura. O cinzento transmite uma imagem de sobriedade e contemporaneidade. O antracite confere aos caixilhos e às portas um aparente requinte. E assim, pouco a pouco, a diversidade dá lugar à repetição.
Mas uma casa não é apenas um volume arquitetónico. É também parte de uma rua, de uma comunidade, de uma paisagem e de uma memória coletiva. Quando as mesmas soluções são reproduzidas em todo o lado, corremos o risco de construir lugares cada vez mais parecidos entre si, perdendo aquilo que os torna reconhecíveis.
E o que acontece à tradição da cor?
A arquitetura tradicional portuguesa nunca foi inteiramente uniforme. Consoante as regiões, os materiais disponíveis, o clima e os costumes locais, encontramos........
