A minha tese imaginária sobre o caso Ronaldo
Os navegadores portugueses, por exemplo, não dominavam a geografia nem as marés do planisfério quando se deixaram tentar pelo desconhecido. Dentro de limites aceitáveis parece-me ser legítima a tentativa de abordar um assunto que somente conseguimos agarrar qual pedaço de areia: malgrado muitos dos grãos se escaparem, alguns permanecerão no nosso punho. Um pouco à imagem de Ortega y Gasset acerca das touradas, nutro pelo futebol unicamente o suficiente para estar informado acerca do que se passa. Ora, o caso Cristiano Ronaldo, além de ter marcado indelevelmente a alma de muitos nacionais, merece sofrer mais uma tentativa de ancoragem. Desta feita, a minha.
Muito se disse e escreveu sobre o tema. Como é típico de quando se fala deste desporto, as paixões deixaram-se exacerbar, fazendo da racionalidade uma miragem. Inclusive os mais dotados e temperados comentadores do fenómeno não conseguiram fugir à regra, tendo eu ouvido da sua boca autênticos disparates. A favor e contra CR7. Fazendo um paralelo com a Inteligência Artificial, tentarei levar a cabo uma espécie de Teste de Turing, afastando-me de emoções descompensadas, entre as quais o medo, e remetendo-me à observação. Ou seja, e ainda me referindo ao criptoanalista britânico e à sua experiência, se algo se comporta de forma inteligente, então deve ser mesmo inteligente.
Assim, partirei dos factos conhecidos, esquecendo todas as implicações morais, emocionais e até intelectuais: ficarei remetido ao mundo sensível, isto é, às possibilidades várias e suas consequências óbvias e lógicas – aos seus descendentes. Começarei evocando as objeções à minha tese imaginária. Essas objeções traduzem-se simplesmente num esquema binário jogar/não jogar.
(1º) Ronaldo fez muito por Portugal. Logo, Ronaldo devia ser convocado e jogar.
Na primeira objeção, jogar implica categoricamente respeito e gratidão. Por outra, se CR7 não jogar, não lhe estamos a prestar o devido reconhecimento do que ele fez por Portugal. Deixando de lado, de momento, discutir o que fez pelo nosso país, podemos........
