E os pauzinhos do caracol?
Estávamos nós num curto intervalo entre as chuvas e ventanias da última semana quando, numa manhã não especialmente solarenga, ao chegar junto do carro, deparei no tejadilho com este caracol, de antenas de fora como se estivéssemos no verão.
Esclareço desde já que não me tinha posto a cantar "caracol, caracol, põe os pauzinhos ao sol", essa melodia que mostra o desejo de ver este molusco gastrópode, primo das lesmas, a sair da concha.
Como poderão constatar, o exemplar em causa era um animal valente, destemido, com os corninhos bem para fora, embora não ao sol, que por sinal não se vislumbrava. Aprofundando um pouco o meu conhecimento sobre esta espécie animal, percebi que o sol forte pode ser prejudicial ao caracol, preferindo ele a humidade logo após a chuva. Portanto o meu estimado caracol passeava-se no tejadilho ainda com salpicos de chuva como se estivesse num spa. Está-se sempre a aprender, é o que é.
Enchi-me de cuidados, retirei-o de onde estava e fui delicadamente pousá-lo na relva húmida ali bem perto. O tamanho era demasiado grande para o meu gosto gastronómico, mas esta singela descoberta fez-me evidentemente pensar num pratinho de caracóis bem acompanhado por uma imperial, esse sinal incontornável dos dias de um verão que ainda parece distante.
Enquanto não vem esse tempo a alternativa é contentar-me com uns tremoços — e aproveito para denunciar o facto de que são cada vez mais raros os sítios onde os tremoços aparecem automaticamente ao lado da imperial. Sinal dos tempos, a compressão de custos chegou ao tremoço. A ver vamos a que preço estará o prato de caracóis este ano.
Estratégias de comunicação// Manuel Falcão escreve sempre à sexta-feira, no SAPO
Os Pensamentos Ociosos são uma espécie de diário, com periodicidade semanal, em que Manuel Falcão deixa reflexões e desabafo, sempre à sexta-feira, no SAPO.
