menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Em nome da Tradição, contra a comunhão

40 0
02.07.2026

Há um detalhe que nos chega de Écône em que não consigo parar de pensar. No preciso momento em que quatro homens recebiam uma ordenação episcopal ilícita — sem o mandato do Papa e contra o apelo explícito do Pontífice feito dois dias antes — lia-se em voz alta um juramento de "fidelidade e obediência ao Apóstolo Pedro e ao Papa Leão XIV". As palavras estavam lá, o protocolo estava cumprido. E, ao mesmo tempo, consumava-se um ato de rutura que tornava essas mesmas palavras vazias e contraditórias.

Não consigo deixar de pensar no que costumo chamar a tentação da “capa sem livro". Vivemos tantas vezes a cuidar da aparência, a gerir o que se mostra, enquanto o que verdadeiramente nos constitui vai ficando para trás. Quando a forma está perfeita mas a substância foi abandonada, não temos fidelidade, temos a sua simulação.

Por trás deste ato existe uma premissa, a de que um grupo pode declarar-se guardião autêntico da Tradição desligando-se do todo. Que é possível salvar a Igreja saindo dela ou, pelo menos, saindo da comunhão com quem a governa.

É a lógica de quem, dentro de uma instituição, decide que tem razão sozinho e que o caminho é agir unilateralmente, sem mandato, porque os outros ainda não perceberam o que ele já percebeu. Raramente termina bem. E raramente é tão corajosa quanto parece. Por baixo da ruptura e do grito, quase sempre, há mais orgulho do que........

© Sapo