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A República obriga o Presidente a escolher um lado

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20.01.2026

As declarações proferidas na noite eleitoral pelos dois candidatos apurados para a segunda volta das eleições presidenciais revelam, mais do que diferenças de estilo ou temperamento, uma limitação estrutural do próprio modelo republicano. A Presidência da República, apresentada constitucionalmente como magistratura de equilíbrio e unidade, continua a ser pensada e exercida, logo à partida, como resultado de uma competição política entre campos ideológicos. É nesse contexto que devem ser lidas tanto as palavras de André Ventura como as de António José Seguro.

Quando André Ventura afirma que pretende “agregar a direita”, não está apenas a usar uma expressão infeliz ou excessivamente partidária. Está, na verdade, a dizer em voz alta aquilo que a lógica republicana permite — e até incentiva — que um candidato presidencial seja: o líder de um bloco político que procura vencer o bloco oposto. A Presidência surge, assim, como a consagração simbólica de uma vitória ideológica, e não como um lugar acima do conflito. Do ponto de vista monárquico, esta afirmação é particularmente reveladora, porque um Chefe de Estado que se define como agregador de uma parte do país assume, simultaneamente, que outra parte lhe é alheia. Um Rei nunca poderia dizer que “agrega a direita”, não por prudência retórica, mas porque a própria natureza da Coroa exclui essa lógica: o Rei não agrega facções, representa a continuidade da Nação no seu todo.

Mais do que um desvio pessoal, o discurso de Ventura expõe a fragilidade do modelo republicano quando este deixa cair qualquer pretensão de neutralidade simbólica. A Presidência torna-se uma extensão da luta política quotidiana, e o Chefe de Estado passa a ser percebido como vencedor de uma metade contra a outra. É uma visão coerente com a sua trajetória e com a sua leitura do regime, mas profundamente incompatível com a ideia clássica de magistratura suprema.

António José Seguro, pelo contrário, procurou conscientemente afastar-se dessa linguagem. Falou de união, de ser “presidente de todos”, de moderação e de........

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