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Guerras, sanções económicas e mortes

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25.03.2026

Ninguém tem a menor dúvida de que a decisão de declarar uma guerra ou de aplicar uma sanção económica é um atributo do reduzido Mundo de políticos no topo do poder das grandes potências.

Uma guerra ou a aplicação de sanções económicas levam necessariamente a mortes de pessoas, muitas, poucas, consoante a dimensão, a intensidade e a duração que assumem.

Temos, assim, pessoas a decidir a morte de outras pessoas, quantas vezes de forma tão leviana e irresponsável. Para as justificar e se justificarem perante a sociedade, continuam esses políticos a “inventar” umas quantas razões, como “a contenção de conflitos armados”, “violações de direitos humanos”, “promoção da democracia” …, embora os decisores das guerras ou de sanções, cada vez menos se preocupem com isso.

As sanções económicas são, assim, um instrumento determinante de política externa das grandes potências mundiais, com destaque para os EUA e, desde a década de 1950, o seu crescimento tem evoluído de forma exponencial. Normalmente, são impostas com a finalidade de submeter os governos dos países aos desígnios de quem as impõe. Quase sempre estas mesmas razões são as invocadas para o desencadear de guerras.

Os poderes do poder político tornam-se, nestas decisões, uma questão deveras preocupante, em que pouco se reflecte.

Muitos de nós “imaginam” que há uma diferença abissal, em termos de mortalidade, entre a declaração de uma guerra e uma sanção económica. Naturalmente, somos levados a pensar que a decisão por uma sanção económica é bem menos grave que uma guerra, tendo como parâmetro de comparação, o número de mortes.

Será que a vida real nos dá razão?!

Recentemente, chamaram-me a atenção para um estudo da revista The Lancet Global Heath, uma das de maior credibilidade mundial na área, publicado em Agosto de 2025. Um estudo tido como rigoroso, elaborado na base de uma metodologia robusta que, pela primeira vez, quantifica o número de mortes anuais comparado, ou seja, o número de mortes causado pelas sanções económicas unilaterais dos EUA e da União Europeia, face ao número de mortes proveniente das guerras. (Sanções unilaterais são as não sujeitas a decisão do Conselho de Segurança da ONU, sendo a grande maioria de origem EUA).

E então que informação nos fornece esse estudo?

Pesquisas num período de 4 décadas de investigação de especialistas das áreas da saúde pública, relações internacionais e economia revelam:

as sanções económicas unilaterais causam elevadas perdas humanas e que essas baixas são mensuráveis, através de metodologias credíveis e robustas.

o número de mortes situa-se fora das expectativas comuns e nunca inferiores às causadas pelas guerras.

Para mim, foi um choque. Estava longe desta realidade!

O estudo avança um número de mortes por ano, causado pelas sanções unilaterais, deveras estrondoso: 564 258, ou seja, nas quatro décadas, o acréscimo de mortes, acima do normal, atingiu um pouco mais de 22 milhões e meio. Um número, sem dúvida, arrepiante.

Por seu lado, o número directo de mortes, com origem na guerra, foi de apenas 106 000 por ano. Para o período do estudo, 4 décadas, o número de mortes andou à volta de 4,2 milhões de pessoas. Uma diferença abismal.

Mas é evidente.  Não é este o número que compara, pois falta adicionar as mortes civis, crianças, idosos e outra população civil como se observou, por exemplo, na Faixa de Gaza e ainda um número de mortes posteriores, indirectas, decorrentes de cada guerra.

E juntando tudo isto, os números de mortes aproximam-se, embora o estudo refira que, em grande parte, as guerras no seu conjunto são menos mortíferas que as sanções, o que, ao primeiro embate, impressiona e nos leva a perguntar: não haverá aqui algum engano?!

O estudo contém uma explicação de que relevo alguns factos.

É que as sanções têm os seus efeitos ao retardador. As sanções não matam com armas, mas afectam, por exemplo, as infraestruturas da saúde como as instalações hospitalares, o equipamento hospitalar, provocam redução, carência e rupturas de stocks de medicamentos, inputs de materiais para análises e exames clínicos, ou seja, desorganizam, por completo, os cuidados de saúde a prestar às populações em situações por vezes mesmo dramáticas. E daí as mortes “ao ralenti”. O cidadão torna-se menos sensível, porque não apreende a sua dimensão.

Mas, as sanções atingem muitas outras áreas essenciais da vida das pessoas, como a insegurança alimentar nas formas mais variadas, desde a carência imediata de alimentos pois vêm dificultar as exportações e importações de fertilizantes, cereais e outros produtos, conduzindo a situações muito graves de subnutrição, fome, mortes e à paralisação da produção de certas culturas agrícolas ou sectores alimentares necessários à vida do dia a dia das pessoas.

De uma forma geral, provocam a desorganização das sociedades humanas, dificultando ou mesmo paralisando áreas transversais da economia como os transportes, a energia, a água, as empresas porque lhes dificultam o abastecimento de peças, matéria- primas, numa palavra, a sua laboração. Por outro lado, o impacto das sanções na sociedade por camadas etárias é também diferente da guerra. Os mais afectados são, sobretudo, os idosos e as crianças, os mais indefesos, enquanto na guerra são as camadas em idade activa.

As sanções ligadas à guerra da Ucrânia

Já aqui abordamos, algumas vezes, as sanções económicas, designadamente as que os EUA e a União Europeia têm tentado aplicar à Rússia (e já lá vão 20 pacotes de sanções) e a outros países que não alinharam com as sanções, mas quanto a efeitos puramente económicos.

Escreveu-se, então, que as sanções económicas têm ricochete e, por isso, antes de as desenhar, era de antecipar as consequências, sob um triplo ângulo: “sociedade e economia da Rússia, no Mundo e países da UE”.

A guerra iniciou-se a 24 de Fevereiro 2022 e o FMI, em Julho, logo assinalou: “mesmo com as sanções, a economia da Rússia vai cair menos este ano que o previsto” e o “Le Monde Diplomatique” de 22 Junho: “os países europeus, na impaciência de renunciar aos combustíveis russos para asfixiar o Kremlin, improvisaram soluções”, cometendo dois erros grosseiros:

Primeiro, ao reduzirem de forma precipitada a sua forte dependência do gás e petróleo russos, sem terem assegurado alternativa fiável e equivalente em custos;

Segundo, ao alinharem pelas posições americanas desajustadas dos interesses europeus. Washington pode, com toda a facilidade, decretar o embargo dos combustíveis, pois não é atingido pelas sanções, enquanto nos países europeus a situação é desigual, por não terem recursos próprios.

Tudo isto veio a verificar-se, nos anos posteriores. O ricochete das sanções veio a dar-se numa Europa a perder competitividade e emprego, a deslocalizar e a fechar empresas, sobretudo as mais consumidoras de energia, porque, no mercado europeu, os preços da energia subiram cerca de 3 vezes face aos fornecidos antes pela Rússia.

Interessante seria o outro ângulo de visão, relacionando as mortes comparadas: sanções versus guerra. Talvez, o panorama fosse tão chocante que o impulso a negociações sérias para uma paz duradoura rompesse o ponto morto em que se encontra a situação.


© Sapo