Estará o sono a escapar-nos? Do berço à adolescência: uma epidemia silenciosa
No próximo dia 13 de março assinala-se o Dia Mundial do Sono, sob o lema simples e profundo: Sleep Well, Live Better – Dormir Bem, Viver Melhor. Mais do que palavras bonitas, é um apelo global para colocar o sono no lugar que ele merece: no centro da saúde física, mental e da qualidade de vida. Organizado pela World Sleep Society, este dia surge como um alerta urgente num mundo em que dormir passou a ser um luxo.
Mas há um aspeto ainda mais alarmante que poucas campanhas conseguem capturar plenamente: o sono das crianças, jovens e famílias. Em Portugal e no mundo, os padrões de sono das crianças revelam uma realidade que já não pode ser ignorada. Dados recentes indicam que cerca de 30% das crianças enfrenta dificuldades relacionadas com o sono, e muitos pais relatam despertares noturnos frequentes, partilha de cama ou de quarto e dificuldade em adormecer. Práticas que se tornam rotineiras e, muitas vezes, aceites como “simples fases”.
Na verdade, estima-se que cerca de 40% das crianças apresentam distúrbios do sono associados a hábitos que se consolidam desde os primeiros meses de vida e que são promovidos, reforçados e, muitas vezes, romantizados por conselhos bem-intencionados, mas cientificamente frágeis. É comum ouvir-se que “é apenas uma fase, que vai para a cama dos pais e resolve, ou ainda vais ver que mais tarde passa”. Mas estas expressões, repetidas com naturalidade, não resolvem o problema, podendo até atrasar o reconhecimento de um grave desafio de Saúde Pública. O impacto não se limita às crianças: ecoa em toda a família. Pais exaustos e com sono fragmentado, redução do bem-estar, irritabilidade, diminuição da capacidade de atenção e da capacidade de responder ao stress. Tudo isso está diretamente ligado à privação de sono crónica, uma realidade cada vez mais comum nas nossas casas. Quando os adultos dormem mal, toda a dinâmica familiar sofre, e a saúde mental dos cuidadores é posta em risco.
O sono infantil não é um detalhe da rotina familiar – é um pilar essencial para o desenvolvimento neurocognitivo, emocional e comportamental. A European Sleep Research Society tem vindo a enfatizar a importância da higiene do sono na infância, uma vez que atualmente sabe-se que um sono de qualidade e quantidade adequadas é preditor de um crescimento e desenvolvimento saudáveis, bom desempenho académico e bem-estar das crianças e adolescentes. No entanto, a lacuna formativa continua abismal. Os cursos de preparação para a parentalidade raramente abordam este tema de forma estruturada e abrangente e a formação inicial de muitos profissionais de saúde e de educação não dedica tempo suficiente a conteúdos de promoção de hábitos de sono saudáveis ou à identificação precoce de distúrbios do sono.
O resultado? Famílias mal preparadas, desinformadas e fragilizadas por uma avalanche de (des)informação nas redes sociais, onde conselhos contraditórios proliferam sem filtros de credibilidade.
A ausência de orientações consistentes e de acompanhamento especializado transforma um problema comum num ciclo de frustração, culpa e desgaste. O que precisamos é de uma cultura do sono em Portugal, que comece desde os cursos de preparação para a parentalidade, passe pelas creches e escolas ‘amigas do sono’ com horários que respeitem as necessidades de sono das crianças e jovens, e que chegue aos centros de saúde e hospitais com profissionais capacitados para orientar, apoiar e encaminhar de forma eficaz.
Em pleno século XXI, escolas portuguesas continuam a agredir a saúde de crianças e jovens ao ignorarem a ciência do sono: proibir sestas depois dos 3 anos e forçar adolescentes a iniciar as aulas às 8h desrespeita completamente o ritmo biológico que a investigação demonstra ser vital para atenção, aprendizagem e bem-estar. A cronobiologia é clara: horários escolares precoces aumentam a privação de sono e debilitam a saúde mental e académica dos estudantes, criando uma geração cronicamente cansada e mal preparada para viver. É uma negligência educativa e de Saúde Pública que já não podemos tolerar.
O Dia Mundial do Sono é, por isso, mais do que uma data no calendário. É uma oportunidade para redefinir prioridades, reconhecer que bons hábitos de sono beneficiam crianças, jovens e pais ao longo da vida, e que as consequências de um sono insuficiente ou fragmentado podem ser profundas e duradouras.
Dormir bem não é um luxo, é uma necessidade vital. Enquanto continuarmos a tratar o sono como um detalhe menor da vida em família, estaremos a comprometer não apenas o bem-estar de cada indivíduo, mas também o futuro das nossas crianças, o bem-estar das nossas famílias e a saúde da nossa sociedade.
Dormir bem é viver melhor e isso pode começar já hoje.
Especialista em sono, professora adjunta e coordenadora da Pós-Graduação em Sono da Criança, Adolescente e Família na ESSATLA, Escola Superior de Saúde Atlântica.
