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Lucros, salários e a aritmética de Marte

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17.03.2026

No debate parlamentar da semana passada, o secretário-geral do PCP apresentou mais um exemplo clássico da economia política comunista: pegar num número grande, dividi-lo por outro número e concluir que todos poderiam ganhar muito mais se as empresas não fossem tão “gananciosas”. O raciocínio foi simples: Como a Galp teve lucros superiores a mil milhões de euros em 2025, esse montante permitiria aumentar o salário de todos os trabalhadores da empresa em cerca de 12 mil euros mensais.

À primeira vista, a conta parece sedutora. O próprio Polígrafo da SIC classificou a afirmação como “verdadeira, mas…”. E é precisamente nesse “mas” que começa a economia real — aquela disciplina aborrecida que insiste em introduzir conceitos como investimento, risco, capital e sustentabilidade empresarial. Conceitos que, ao que parece, continuam a ter dificuldade em atravessar as paredes particularmente espessas do comité central do PCP.

A razão é simples: a realidade económica não funciona como uma folha de cálculo simplista. Os lucros não são um saco de dinheiro parado num cofre à espera de ser redistribuído por decisão política — muito menos no caso de uma empresa privada que opera em mercados competitivos. Representam o retorno do capital investido, remunerando acionistas que assumiram risco, financiando novo investimento, sustentando inovação e permitindo às empresas competir e sobreviver num ambiente de concorrência permanente. Quando uma empresa gera lucros, não está simplesmente a acumular riqueza; está a financiar investimento, inovação e a própria continuidade da atividade económica. Se uma empresa distribuísse sistematicamente todos os seus lucros em salários, deixaria rapidamente de investir, perderia competitividade e acabaria por destruir emprego — exatamente o contrário do que dizem querer os defensores deste tipo de raciocínio.

Há ainda outro detalhe que tende a desaparecer quando a economia é reduzida a slogans políticos: custos laborais não são apenas salários. Existem contribuições sociais, impostos sobre o trabalho e outros encargos que elevam significativamente o custo total do trabalho para a empresa. Como o próprio fact-check indicou, quando se incluem esses encargos, o custo da proposta ultrapassaria o próprio lucro anual da empresa. Mas mesmo que a matemática fechasse, o argumento continuaria a falhar num ponto essencial. O problema não é apenas contabilístico; é conceptual.

A esquerda comunista gosta de apresentar a narrativa eterna da defesa do proletariado contra os patrões. No entanto, raramente reconhece uma realidade elementar: sem empresas não existem trabalhadores assalariados. O próprio conceito de proletariado pressupõe a existência de empregadores, capital e organização empresarial capazes de financiar atividade produtiva. Sem investimento privado não há empresas; sem empresas não há postos de trabalho; e sem postos de trabalho não há salários para distribuir.

É neste ponto que surge frequentemente o contra-argumento clássico dos comentadores de café: “mas sem trabalhadores também não há empresários nem lucros”. À primeira vista, a frase parece equilibrada, quase filosófica, como se resolvesse o velho dilema da galinha e do ovo. Na realidade, trata-se de um falso paralelismo económico.

Há pelo menos quatro razões simples para perceber porquê.

Primeiro, a oferta de trabalho existe independentemente de uma empresa específica. As pessoas procuram emprego porque precisam de rendimento para viver. A necessidade de trabalhar precede qualquer empresa em particular.

Segundo, o que cria emprego não é a existência de trabalhadores disponíveis, mas a existência de investimento que gera atividade produtiva. Uma economia pode ter milhões de pessoas dispostas a trabalhar e, ainda assim, apresentar desemprego elevado se faltar capital para criar empresas.

Terceiro, o fator verdadeiramente escasso numa economia não é o trabalho, mas o capital produtivo. Trabalhadores existem em abundância na maioria dos países; o que é raro é capital acumulado, capacidade de assumir risco e organização empresarial capazes de transformar esforço humano em produção.

Quarto, é essa combinação de capital, tecnologia e organização que torna o trabalho produtivo. Um trabalhador isolado produz pouco; integrado numa empresa com financiamento, equipamentos, logística e acesso a mercados, a sua produtividade multiplica-se. E são níveis mais elevados de produtividade que permitem pagar salários mais altos.

Dito de forma simples: os trabalhadores são, naturalmente, indispensáveis, mas não são suficientes. O trabalho é uma condição necessária da produção económica — mas sem capital, investimento e organização empresarial permanece apenas potencial produtivo por realizar.

Uma vez clarificado este ponto, desaparece o aparente paradoxo. Um dos princípios mais elementares da teoria económica é que o fator limitador da produção não é a existência de pessoas capazes de trabalhar, mas a existência de capital capaz de organizar e financiar atividade produtiva. É precisamente a acumulação de capital — através de investimento, empreendedorismo e criação de empresas — que permite expandir a atividade económica, aumentar a produtividade e gerar mais oportunidades de emprego. Pelo contrário, quando se penaliza o lucro, se desincentiva o investimento e se hostiliza o capital, o resultado tende a ser previsível: menos empresas, menos emprego e menor crescimento económico no longo prazo.

Também convém recordar outro princípio básico da economia do trabalho: os salários resultam da interação entre oferta e procura de trabalho. O chamado salário de equilíbrio não é determinado por declarações parlamentares ou resoluções partidárias, mas pela produtividade do trabalho, pela competitividade das empresas e pelas condições do mercado. As empresas contratam trabalhadores até ao ponto em que o valor adicional que cada trabalhador gera — a sua produtividade — compensa o custo de o empregar. Quando a produtividade aumenta, as empresas podem pagar salários mais elevados sem comprometer a sua competitividade. Pelo contrário, quando a produtividade estagna, aumentos salariais impostos administrativamente acabam frequentemente por se traduzir em menos contratações, menor investimento ou perda de atividade económica. Não por decreto político, mas porque é a própria dinâmica económica que determina a capacidade de pagar salários mais elevados.

É precisamente por isso que economias que acumulam capital, promovem investimento e incentivam inovação conseguem elevar de forma sustentada a produtividade — e, com ela, os salários. O que torna este tipo de discurso particularmente anacrónico não é apenas a fragilidade da conta apresentada. É a persistência de uma visão económica que trata a riqueza como algo que simplesmente existe para ser redistribuído. Mas a economia não funciona assim. Antes de discutir como distribuir riqueza, é preciso compreender como ela é criada. E essa criação começa sempre no mesmo lugar: nas empresas, no investimento, no empreendedorismo e na capacidade de assumir risco. Não, não é no Estado! Tudo o resto — incluindo os salários — depende disso e vem depois.


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