Afinal não foi um sismo, foi uma peixeirada
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Ontem, Portugal abanou. As estações da Rede Sísmica do Continente assinalaram tremores em vários pontos do país e, por breves instantes, muitos ficaram em suspenso, atentos ao chão que parecia fugir-lhes dos pés. Pouco depois, o IPMA confirmava: nada de dramático, 4.1 na escala de Richter. Um abalo civilizado, daqueles que fazem tilintar a loiça, quase a pedir desculpa pelo incómodo. Não dei por ele.
Horas depois, a assistir ao debate quinzenal na Assembleia da República, pensei: afinal, não foi um sismo, foi uma peixeirada. Duas semanas e meia depois do início do comboio de tempestades, o primeiro-ministro regressou à Assembleia da República para responder às perguntas dos deputados e, esperava-se, dos portugueses também. Tive medo.
Não seria de instalar um sismógrafo no hemiciclo? Uma espécie de Escala de Richter da Retórica Parlamentar (ERRP), uma métrica quase científica:
Magnitude 1: o bocejo do deputado enfadado. Danos estruturais: zero. O tremor é quase imperceptível, não fosse o ligeiro bafo a café com "cheirinho";
Magnitude 2: um assessor entra de rompante e entrega um papelinho anotado com entusiasmo genuíno. Danos estruturais: zero, apenas uma deslocação leve de papelada;
Magnitude 3: a referência a um relatório europeu, uma frase em latim, dois deputados que fingem falar ao telemóvel para mostrar serviço. Danos estruturais: brevíssimo sobressalto;
Magnitude 4: uma senhora deputada atira palavras de ordem: "Está descompensado, aquele senhor está descompensado", grita. Ouve-se "vergonha" e "muito bem!" pelo menos três vezes vindo de diferentes bancadas. Danos estruturais: algumas sobrancelhas arqueadas, vibração nos copos de água;
Magnitude 5: alguém pede defesa da honra, o deputado Pedro Pinto estala os dedos para chamar a atenção da mesa, uma avalanche de "ahhhhhh" e ohhhhhh". Danos estruturais: troca de olhares fulminantes, olhos rebolam, cabeças rodam. Queda de alguns objectos e perda de paciência;
Magnitude 6: o presidente da Assembleia da República intervém com frequência: pede "contenção", "tranquilidade", "serenidade". Ralha com os deputados. Danos estruturais: André Ventura afirma: "Dão o pior exemplo a esta casa, vocês";
Magnitude 7: o barulho de fundo e apartes atingem o limite técnico. Há palmas e apupos, caretas e sinais que não são de fumo. Hugo Soares grita tanto que fica rouco, Rui Tavares pede uma comissão de inquérito. Danos estruturais: voam alguns objectos, os microfones são cortados, jornalistas escrevem compulsivamente "clima de tensão", publicam-se hashtags inflamados, stories e memes nas redes sociais.
A partir daqui, é o salve-se quem puder — e o caminho é sempre a descer.
Ontem, no país como em São Bento, os tremores foram vários e de intensidade diversa, o suficiente para dar vontade de fugir. Não me revejo neste parlamento. Não é só pelo histerismo desnecessário, pela triste figura, pelo não saber estar. É sobretudo pela falta de ideias e de sentido de Estado, pela ausência de brilhantismo e profundidade (com honrosas excepções).
Um sismo mede-se pela energia libertada; a política devia medir-se pela qualidade das soluções apresentadas. O país não "caiu" por causa do abalo de 4.1 na Escala de Richter. Mas também não avançou. E é isso que é inquietante.
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