Teodoro e os filmes inabitáveis
O Professor Teodoro Ramalho aconchegou-se na casa da Vila Berta. A vitrola estava pronta. Os velhos DVD repousavam ao lado do comando, como veteranos à espera da última convocatória. Sobre a mesa, um whiskey. No cinzeiro, um charuto Montecristo ainda por acender.
O plano era simples: Rever certas cenas de filmes. Não filmes inteiros. Apenas momentos. Há instantes do cinema que dispensam o resto da película. Vivem sozinhos, como certos versos ou certas fotografias.
Lá fora, na noite de Lisboa, a humidade rola pela pele a pedir chuva. Os gatos vadios esgueiram-se pelos telhados. Cá dentro Teodoro anima o whiskey moribundo e dá lume ao charuto. Recordou Cesare Pavese: "Nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz."
A frase perseguiu-o durante alguns minutos. Depois ocorreu-lhe a pergunta: Será que também existem filmes inabitáveis? Lugares da memória onde regressamos com receio de encontrar apenas ruínas? Nada é mais perigoso do que rever um filme que nos fez feliz.
Carregou no comando. Começou........
