Teodoro e o Tédio
O Professor Teodoro Ramalho está posto em descansos. Nos aposentos da Vila Berta a noite trouxe consigo as aves da melancolia. Há muito que o sol escorregara do céu. E agora uma chuvinha salpicava as vidraças, volúvel como um ar de felicidade, espalhando claridades de diamante.
Ah, l'Ennui – essa sensação francesa; o Spleen – essa neblina da alma inglesa; o Tédio – essa comichão metafísica dos portugas.
Teodoro começou a cogitar: O contrário do tédio não é a diversão. É o sentido.
Teodoro sabe de fonte segura que Graham Greene, uma vez, foi arrancar um dente para se livrar do danado do Ennui, pedindo à dor que substituísse a poeira parda.
O Professor nunca se interessou por meditações zen, nem consultas a terapeutas para escorraçar o tédio. E se arrancar mais dentes fica sem vigor para mordiscar o bife da Portugália. Daí que prefira organizar o seu pequeno coliseu particular: livros, música e filmes.
Na vitrola roda Billie Holiday cantando I'm a Fool to Want You – o último registo de Lady Day. Conta-se que teve de ser levada ao colo para o estúdio. Logo de seguida toca For Heaven's Sake. Teodoro deslumbra-se com os violinos divinos de Ray Ellis e aquelas vozes angelicais de fundo — an angel is holding my hand; heaven is not very far away.
No colo........
