Da escassez ao excesso: o novo risco da inovação em Defesa
Há uma pergunta que se ouve com demasiada frequência no ecossistema de inovação de Defesa: "Temos uma plataforma autónoma com IA. Onde é que as Forças Armadas a podem utilizar?" É uma pergunta legítima do ponto de vista comercial. É, quase sempre, a pergunta errada do ponto de vista militar porque devia ter sido feita antes de a plataforma existir.
Parte do problema é o momento em que vivemos. Passámos do 8 para o 80. Depois de décadas de desinvestimento em Defesa, com orçamentos comprimidos, capacidades adiadas e indústria reduzida ao essencial, instalou-se de repente a ideia de que a Defesa é "sexy": há dinheiro, há urgência geopolítica, há investidores de capital de risco a descobrir o setor pela primeira vez, e há uma corrida generalizada para lá entrar. O resultado é previsível. Em vez de um crescimento ordenado a partir dos problemas identificados por quem opera, temos uma vaga de entusiasmo que anda toda a reinventar a mesma roda, quase sempre a mesma plataforma autónoma, o mesmo drone, a mesma promessa de disrupção, sem que ninguém tenha necessariamente perguntado se é essa a roda que falta. Passar de décadas de escassez para um excesso súbito de atenção e capital não corrige o défice de disciplina; pelo contrário, tende a agravá-lo, porque a pressa de "entrar na Defesa" substitui a paciência de perceber o que a Defesa precisa.
A Defesa não sofre de falta de problemas. Sofre, isso sim, de um excesso de tecnologia à procura de onde encaixar. Os militares identificam-nos há anos com uma precisão que a indústria raramente ouve: comunicações degradadas ou negadas em ambiente de guerra eletrónica; sistemas que não comunicam entre si; sensores que produzem mais dados do que os operadores conseguem processar; dependência do GNSS; assinaturas que denunciam posições; logística frágil; manutenção exigente; formação difícil de sustentar; e equipamentos que funcionam impecavelmente numa demonstração de dias frios com lama, água salgada, interferência e utilização contínua. A guerra na Ucrânia tornou estes problemas impossíveis de ignorar. Não nos falta identificá-los. Falta-nos, muitas vezes, a disciplina de começar por eles.
A sequência correta é: problema → contexto operacional → restrições → requisitos → solução possível → teste → iteração → capacidade. A sequência que se tende a instalar com demasiada frequência é a inversa: tecnologia → financiamento → apresentação → branding de Defesa → conferências → procura de um caso de uso a posteriori. A diferença não é semântica. É a diferença entre construir uma capacidade militar e tentar vender uma tecnologia às Forças Armadas.
O contexto português é favorável........
