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De pessoas e para as pessoas. O impacto do voluntariado desenvolvido por empresas e organizações

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03.03.2026

Por Anabela Veloso, bastonária da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução

Num contexto marcado por fenómenos climáticos extremos e por uma crescente exigência de respostas rápidas e eficazes, o papel das organizações e dos profissionais ultrapassa cada vez mais os limites do exercício tradicional da sua actividade. As imagens e os testemunhos que chegam e que tão bem ilustram a destruição provocada pela tempestade Kristin e pelas intempéries que se seguiram não podem deixar ninguém indiferente. E as organizações e empresas nacionais sentiram o dever moral de, com os seus preciosos recursos humanos, ajudarem a reconstruir e a reerguer o país.

Não restam dúvidas: a recente resposta à tempestade Kristin é um exemplo claro de como o conhecimento técnico, quando mobilizado de forma estruturada e solidária, pode gerar impacto social relevante. Foram vários os exemplos: da limpeza à construção, do apoio psicológico ao aconselhamento jurídico. E a Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução (OSAE) não foi excepção. Não podia ser. Assim, perante os prejuízos registados em vários concelhos do país, a OSAE lançou um apelo aos seus associados para a criação de uma Bolsa de Voluntários destinada à elaboração gratuita de Autos de Constatação, permitindo apoiar cidadãos, empresas e entidades afectadas pela situação de calamidade.

A forte adesão ao repto permitiu, em pouco tempo, constituir uma rede de profissionais habilitados, preparados para assegurar o registo rigoroso dos danos causados pela intempérie. Este registo, efectuado através do Auto de Constatação, assume um papel decisivo no acesso a apoios públicos, no accionamento de seguros e na garantia de uma prova formal de prejuízos junto de entidades oficiais. Mais do que um instrumento jurídico, trata-se de um mecanismo que acarreta segurança, credibilidade e objectividade num momento em que a pressão emocional e a urgência podem comprometer a qualidade da informação recolhida.

Do ponto de vista dos Recursos Humanos, esta iniciativa evidencia várias dimensões que hoje marcam a agenda das organizações. Desde logo, a valorização do voluntariado qualificado, que não se limita a acções simbólicas, mas assenta em competências técnicas concretas, formação especializada e responsabilidade profissional. Ao colocarem o seu conhecimento ao serviço da comunidade, estes profissionais demonstram como as competências adquiridas ao longo da carreira podem ser mobilizadas em contextos de emergência, reforçando o sentido de propósito e a ligação entre profissão e impacto social.

O Auto de Constatação, elaborado por um profissional habilitado, com formação especializada, permite documentar de forma objectiva e detalhada os danos sofridos, recorrendo a descrições técnicas, registos fotográficos e outros elementos relevantes. Este rigor é essencial para garantir que os pedidos de apoio e os processos de indemnização decorrem sem conflitos, com transparência e eficácia. Num cenário em que a confiança nas instituições é um activo decisivo, a intervenção de profissionais qualificados contribui para reforçar a credibilidade dos processos e a confiança dos cidadãos.

Aliás, para assegurar uma resposta articulada no terreno, com efectivo valor para quem dela precisa, a informação relativa a esta iniciativa foi também remetida às Câmaras Municipais, à Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) e às Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), promovendo a cooperação institucional e evitando sobreposições ou falhas na resposta às populações afectadas. Esta articulação revela a importância de redes colaborativas e de uma gestão integrada de recursos humanos e institucionais em contextos de crise.

O apoio disponibilizado através desta Bolsa de Voluntários destina-se a qualquer pessoa singular, empresa ou entidade localizada nos concelhos afectados pela tempestade Kristin e abrangidos pela situação de calamidade que tenha sofrido prejuízos e necessite de os comprovar. O serviço é totalmente gratuito, reflectindo uma lógica de responsabilidade social profissional que se alinha com as melhores práticas de cidadania organizacional e com os princípios cada vez mais valorizados nas políticas de ESG (Environment, Social e Governance) e de gestão de pessoas.

Num momento em que as organizações e as empresas são cada vez mais avaliadas não apenas pelos seus resultados económicos ou refentes ao seu core business, mas também pelo seu contributo para a sociedade, esta iniciativa demonstra como o envolvimento activo dos profissionais pode fazer a diferença.

Para os Recursos Humanos, fica a evidência de que promover culturas organizacionais assentes em propósito, responsabilidade e serviço à comunidade não é apenas uma opção ética com impacto na vida de quem dela beneficia. É também uma forma – eficaz e reconhecida – de valorizar competências, reforçar o compromisso profissional, contribuir para a construção de uma sociedade mais resiliente e, com toda a certeza, de consolidar as relações interpessoais que alicerçam o sucesso de qualquer empresa ou organização. De pessoas e para as pessoas – é disto que falamos e é isto que importa.


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