Portugal e a armadilha do baixo valor acrescentado
A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal, e que distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia. Cláudia Moreira foi distinguida enquanto aluna da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, relativamente à edição de 2024/2025.
Crescemos a ouvir “Estuda, tira boas notas, esforça-te e terás uma vida melhor”, mas será isto verdade? Em Portugal, este contrato tornou-se ilusório e a fuga de talentos é o resultado de uma economia que quebrou a sua promessa. E esta não pode apenas ser revertida com palavras de incentivo e medidas pontuais, são necessárias reformas estruturais no mercado de trabalho. Nas últimas semanas, temos sido confrontados com debates e anúncios sobre as novas leis laborais; resta saber qual será o impacto real das medidas em discussão perante o ciclo vicioso de baixa produtividade, baixos salários e baixo investimento.
Portugal continua a ser o país da União Europeia onde a população em idade ativa é menos escolarizada. Segundo a Pordata, quatro em cada dez pessoas não concluíram o ensino secundário. Ainda assim, o país formou a geração mais qualificada de sempre, convergindo a sua taxa de escolarização superior (43,2%) para a média da UE (44,1%) na faixa etária entre os 25 e os 34 anos.
Esta geração investe tempo e recursos na sua formação com o desejo de contribuir para uma economia dinâmica e competitiva, mas esse esforço nem sempre encontra correspondência no mercado nacional. Muitos terminam o ensino superior e deparam-se com oportunidades de trabalho pouco competitivas e salários baixos que, aliados à crise habitacional, impedem a autonomia financeira. O resultado já é conhecido: a estadia na casa dos pais prolonga-se, a parentalidade é adiada, e cresce a frustração perante uma estrutura empresarial que, apesar de contar com excelentes exemplos de competitividade externa, permanece na sua média centrada em modelos de gestão tradicionais e setores de baixo valor acrescentado. Os jovens não querem desistir de Portugal, mas é necessário que o país não desista deles.
Importa, por isso, lembrar que a saída destes jovens representa uma perda económica para o país. De acordo com a OCDE, o Estado investe mais de 90 mil euros, em média, na formação de cada jovem licenciado, investimento que nem sempre se traduz em valor criado para a economia. Medidas conjunturais como o IRS jovem, a devolução das propinas ou apoios à habitação podem aliviar parte da pressão financeira, mas são apenas um penso rápido para um problema estrutural.
Enquanto a nossa economia assentar em setores de baixo valor acrescentado, como o turismo, a produtividade continuará estagnada. E, sem produtividade, não há milagres salariais. É certo que o problema da produtividade não se resolve apenas com reformas estruturais no mercado de trabalho, são essenciais outras reformas como na administração pública ou na justiça. Contudo, para que a economia portuguesa cresça, as empresas têm de apostar na tecnologia e abraçar a revolução digital.
Segundo o mais recente Estudo do Impacto da Economia Digital em Portugal (2025), dirigido pela Associação da Economia Digital em Portugal, o digital já representa 39% da produção nacional. No entanto, menos de 10% das empresas utilizam Inteligência Artificial (IA), um valor que nos deixa abaixo da média europeia (13%), sendo a principal barreira a esta transição a falta de competências internas (42%). Além disso, apenas 30% da população demonstra competências digitais avançadas, e a percentagem de licenciados em TIC permanece também abaixo da média europeia.
A nossa lacuna reside na dificuldade de utilizar a tecnologia para resolver problemas estruturais como a baixa produtividade, de modo a gerar valor. Para inverter este cenário, é urgente investir em requalificações tecnológicas, promovendo uma utilização que seja não só ética, mas também alicerçada no pensamento crítico e criativo, pois o futuro pertencerá a quem dominar estas ferramentas. Assim, nas universidades deveria haver introdução de unidades curriculares transversais de Tecnologia e Digitalização Aplicada a cada área de estudo, preparando os licenciados para impulsionarem a modernização nos seus setores.
No nosso tecido empresarial, composto na sua maioria por microempresas e PME, a transformação digital surge como a grande alavanca, permitindo às organizações marcarem presença global e libertar capital humano para atividades de maior valor acrescentado. Mas para que este salto seja inclusivo, o Estado deve continuar a incentivar esta transição através de apoios vocacionados à requalificação e impulsionar a adoção tecnológica, garantindo o acesso a programas de tutoria que sirvam de ponte estratégica entre as necessidades da empresa, as ferramentas e os fundos disponíveis. Contudo, é imperativo que exista um rigoroso acompanhamento destes financiamentos, pois não devem ser meros distribuidores de fundos, mas sim medidas com impacto real.
Complementarmente, uma medida a aplicar na reforma laboral deveria ser dedicar parte das horas de formação obrigatórias previstas no Código do Trabalho (Artigo 131.º) à capacitação tecnológica e digital. O investimento em tecnologia, IA e automação é indispensável para ganhos de produtividade que potencializem o crescimento da economia em setores de maior valor acrescentado, aptos a oferecer condições de trabalho que acompanhem a qualificação das novas gerações.
Este investimento tecnológico é, no limite, a nossa resposta ao desafio demográfico existente. Não é novidade que o saldo migratório positivo tem equilibrado o envelhecimento populacional. No entanto, a longo prazo, a tecnologia é um instrumento capaz de compensar a redução da população ativa, tornando cada trabalhador mais produtivo e garantindo que menos trabalhadores são suficientes para gerar a riqueza que sustenta o país.
No fim, o desafio não é apenas formar gerações mais qualificadas, mas construir uma economia à altura de as acompanhar.
