A angústia do guarda-redes perante sereias
Comecemos pelas coisas importantes, pelo futebol. A partir dum estudo de Bar Eli*, Rolf Dobelli escreveu o seguinte: "Os futebolistas que têm de marcar um penálti costumam chutar a bola, em um terço dos casos para o centro da baliza, um terço para a esquerda e um terço para a direita. E o que fazem os guarda-redes? Atiram-se em 50% dos casos para a esquerda e em 50% dos casos para a direita. E são poucos os que ficam parados a meio da baliza, apesar de um terço das bolas entrar por aí. E porquê? Porque parece melhor e menos vergonhoso atirar-se para o lado, por errado que seja, do que ficar parado como um pateta a ver a bola passar ao lado. Este fenómeno caracteriza a 'tendência para agir' (action bias): ser-se ativo mesmo que isso não sirva para nada.”
Em situações de elevada pressão e incerteza, a inação é percebida psicologicamente como uma tortura ou como uma admissão de passividade culpável. Há uma compulsão social e interna para “fazer algo”, para demonstrar esforço visível, mesmo que essa acção diminua a probabilidade de sucesso. Ora, o episódio de Odisseu com as sereias encaixa-se perfeitamente no exemplo da angústia do guarda-redes, ressoando ao mesmo tempo com problemáticas modernas.
Odisseu amarra-se ao mastro da sua côncava nau porque a tentação de reagir ao canto (hoje esse canto seria composto de desinformação, mentira, conteúdos polémicos, provocadores ou ofensivos, ou mesmo simples erros de formulação ou até de gramática), é imensa. Uma pessoa com carácter não quer deixar de se pronunciar sobre o assunto mais quente, não só para se posicionar eticamente como para mostrar que não baixa os braços, que não é indiferente e, muito menos, cúmplice. Por isso, somos uma sociedade de pessoas a atirarem-se para o chão, para um lado e para o outro, na esperança de apanhar uma bola. Nunca ninguém reparou — nas redes sem fios — nos guarda-redes........
