A vigilância que se vira contra o vigilante
Durante anos, os Estados venderam-nos a vigilância como sinónimo de segurança. Mais câmaras nas ruas, mais sensores nas cidades, mais bases de dados, mais reconhecimento facial, mais controlo sobre os movimentos das pessoas. Tudo em nome da proteção dos cidadãos, da prevenção do crime, da defesa nacional ou da eficiência urbana. A promessa era simples: se virmos mais, estaremos mais seguros.
A inteligência artificial veio mostrar que esta promessa era, afinal, incompleta. Ver mais também significa expor mais. Recolher mais dados também significa criar mais vulnerabilidades. E construir uma sociedade permanentemente observada pode transformar-se num risco não apenas para os cidadãos, mas também para o próprio poder que criou essa rede de vigilância.
O caso recente analisado pelo Financial Times, sobre os receios russos de que sistemas de câmaras pudessem ser explorados por adversários para seguir movimentos ligados a Vladimir Putin, é particularmente revelador. Durante décadas, regimes autoritários olharam para a vigilância como instrumento de domínio interno. Câmaras, escutas, controlo digital e bases de dados eram formas de manter a população sob observação. Agora, descobrem que essas mesmas infraestruturas podem........
