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Siga a emenda: República terceirizada

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11.09.2026

A Polícia Federal encontrou nesta quinta-feira coincidências de datas e valores entre gastos da Go Up, produtora de Dark Horse, e emendas de Mario Frias destinadas a duas entidades ligadas à mesma empresária, Karina Gama. A investigação ainda busca respostas. O caso, porém, escancara uma engrenagem bilionária cercada por perguntas sobre autoria, destino e fiscalização.

Se um sindicato patronal controlasse parcela crescente do orçamento da empresa que deveria fiscalizar, escolhesse onde o dinheiro seria gasto e ainda reagisse às auditorias, ninguém chamaria isso de equilíbrio. O Congresso brasileiro construiu algo perigosamente parecido dentro do Orçamento da União.

Fecha fileiras para proteger prerrogativas e transforma cada nova exigência de rastreamento em batalha institucional. Mudam as regras, os nomes e os mecanismos. O essencial resiste: bilhões continuam sob influência de quem precisa conservar poder em estados e municípios.

Quem deveria vigiar o gasto público passou também a disputar seu endereço, calendário, beneficiário e crédito político pela entrega.

A parte avançou tanto que começou a interferir na função de quem precisa enxergar o país inteiro.

Se pretendemos levar essa lógica até o fim, melhor abandonar a cerimônia e criar o Ministério de Estado das Emendas Parlamentares: o único ministério da República inteiramente subordinado ao Poder Legislativo, e não ao Executivo.

O presidente não mandaria nele. Ministros de verdade assistiriam à distribuição de bilhões que antes precisavam planejar segundo prioridades nacionais. O absurdo está menos na proposta do que no fato de ela já se parecer com a realidade.

Os números mostram a escalada. Foram pagos R$ 17,6 bilhões em emendas em 2020, R$ 15,9 bilhões em 2021, R$ 17 bilhões em 2022 e R$ 21,9 bilhões em 2023.

Em 2024, os pagamentos saltaram para cerca de R$ 31,4 bilhões. Em 2025, chegaram a R$ 31,5 bilhões. Em seis anos, mais de R$ 135 bilhões percorreram esse caminho.

Recuso-me a tratar esse volume como detalhe técnico. Cada bilhão representa escolhas entre remédio, moradia, escola, saneamento, ciência, estrada, assistência social e prioridades definidas por quem precisa voltar às urnas.

O Tribunal de Contas da União registrou um dado decisivo: em 2023, 28,69% dos investimentos federais foram decididos pelo Legislativo. Entre 2020 e 2023, a média anual das emendas cresceu mais de 195%.

Quase três de cada dez reais de investimento federal passaram a receber direção parlamentar. A discussão ultrapassou a participação legítima do Congresso no Orçamento. Tornou-se redistribuição concreta de poder dentro do Estado.

Em 2024, o Farmácia Popular alcançou 24 milhões de brasileiros com investimento superior a R$ 3,3 bilhões. As emendas pagas naquele ano chegaram perto de dez vezes esse valor.

Dez programas nacionais de medicamentos caberiam nessa dimensão financeira. Enquanto milhões dependem de remédios para diabetes, hipertensão, glaucoma e Parkinson, outro circuito decide bilhões segundo uma geografia essencialmente política.

Na habitação, linhas centrais do Minha Casa, Minha Vida movimentaram aproximadamente R$ 9,6 bilhões em pagamentos em 2024. As emendas pagas superaram três vezes esse montante.

Em 2025, o Bolsa Família destinou quase R$ 160 bilhões a cerca de 19,8 milhões de famílias. As emendas equivaleram a aproximadamente um real para cada cinco aplicados no maior programa de transferência de renda do país.

Emenda bem aplicada pode corrigir abandono histórico. Mas o mecanismo ganhou tamanho suficiente para disputar espaço com políticas concebidas para enxergar o Brasil inteiro. É aí que a exceção deixa de ser detalhe e passa a alterar o desenho do Estado.

Puxadinho parlamentar

A imagem do puxadinho ajuda a compreender a deformação. No prédio principal,........

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