O Brasil que vi do ônibus precisa ficar enterrado no passado
Em março de 1978, aos 18 anos, fiz minha maior viagem de ônibus: quatro dias de Belém a Santarém pela Transamazônica, aberta poucos anos antes. O Brasil vivia sob a ditadura militar. O clima era opressivo, as liberdades permaneciam vigiadas e suspeitava-se de quase tudo, inclusive das palavras ditas a desconhecidos. Eu queria conhecer aquela estrada e um país que imaginava inexplorado. Chovia muito. Em vários trechos, a floresta já avançava sobre a terra batida; depois de centenas de quilômetros, encontrávamos pequenas casas que serviam de bar e apoio ao ônibus. Havia pouco trânsito, e cada parada revelava o abandono ocultado pelo discurso oficial de progresso.
No ônibus, depois do primeiro dia, instalou-se uma convivência que conheço de acampamentos urbanos: passageiros que mal haviam trocado os nomes passaram a contar episódios de suas vidas. Alguém avisava quando era hora de descer, esticar as pernas, comer ou resolver alguma necessidade. Provei tucunaré, pupunha, tacacá e outros sabores oferecidos à beira da estrada. A viagem nos aproximava porque o caminho, a chuva e a demora eram problemas compartilhados.
No segundo dia, o motorista teve febre e passou mal. Ficamos parados num daqueles pontos rústicos de apoio. Ele morreu no terceiro dia, enquanto aguardávamos a chegada de um substituto. Uns diziam que poderia ser malária; outros suspeitavam de uma picada. Ninguém sabia ao certo. Éramos 40 passageiros, unidos por uma notícia que alterou o sentido do percurso. Chegamos a Santarém no fim da tarde do quarto dia, levando conosco a ausência de quem nos conduzira até ali.
Aquela........
