A xenofobia contra o Nordeste envergonha o Brasil
Pela quarta eleição presidencial consecutiva, milhões de nordestinos são submetidos a um exame de inteligência e legitimidade nacional conforme o resultado das urnas. A repetição desse ritual revela uma xenofobia interna persistente, disposta a transformar procedência regional em sentença de inferioridade política e humana.
O estudo “O Nordeste no Banco dos Réus”, da Ativaweb DataLab, divulgado por Carlos Madeiro no UOL, identificou 32,8 milhões de menções à região nas 72 horas posteriores ao primeiro turno de 2026; 27 milhões foram classificadas como críticas ou hostis. Após o segundo turno, outras 14,7 milhões elevaram o total a 41,75 milhões, entre 51,4 milhões de registros.
O monitoramento inclui comentários e compartilhamentos; seus números medem mensagens, sem identificar agressores ou quantificar crimes. O conteúdo examinado, contudo, reúne insultos à inteligência dos nordestinos, associação entre pobreza e incapacidade, comparações desumanizantes e propostas de amputar nove estados do território nacional. A fantasia separatista pretende punir uma população inteira por suas escolhas eleitorais.
Nessa hostilidade opera um expediente antigo: converter desigualdades historicamente produzidas em defeitos morais de quem as enfrenta. Indicadores sociais autorizariam insultos; políticas destinadas a reduzir a pobreza seriam provas de submissão intelectual. Nesse raciocínio desaparecem a concentração fundiária, os investimentos desiguais e a distribuição assimétrica das oportunidades.
Aritmética moral seletiva
A desqualificação do Nordeste também obedece a uma aritmética moral seletiva. Quem recebe transferência de renda é chamado de dependente; quem obtém subsídio tributário ou financiamento público costuma aparecer como agente do progresso. O auxílio muda de nome conforme a posição social do beneficiário, enquanto o voto conserva exatamente o mesmo........
