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Os donos do poder e os outros: Faoro e Fonseca no mesmo espelho

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15.07.2026

No centenário de Raymundo Faoro e Rubem Fonseca, o debate destaca a continuidade da elite que domina o Brasil há seis séculos.

Faoro, em “Os Donos do Poder”, descreve essa elite como um estamento que se apropria do Estado como patrimônio próprio.

Fonseca, em “O Cobrador”, narra as consequências dessa estrutura nas vítimas, listando débitos de necessidades básicas e violência simbólica.

Ambos apontam que a ausência de feudalismo em Portugal permitiu a formação desse modelo de dominação no Brasil.

“Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.”. O Cobrador de Rubem Fonseca sabia exatamente o que lhe deviam – e não tinha pudor nenhum em nomear. Fonseca escreveu isso em 1979. Raymundo Faoro, vinte anos antes, havia descrito com precisão quem devia: a elite que governa o Brasil há seis séculos, que se apropria do Estado como patrimônio próprio e chama isso de administração pública. Um descreveu os donos. O outro descreveu quem paga por eles. Dois escritores, décadas diferentes, o mesmo país visto de lados opostos do mesmo espelho.

Faoro e Fonseca nunca foram lidos juntos. Deveriam. O que um diagnosticou como estrutura, o outro narrou como consequência – e a consequência, em Fonseca, não é abstrata: tem nome de dente arrancado sem anestesia, de ódio que se alimenta quando a cólera diminui. “Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta.” Hoje a televisão é o feed. O ódio continua. A estrutura que Faoro descreveu também. A conta segue aberta – e agora é administrada em algoritmo.

Seis séculos de estrutura

No centenário de Raymundo Faoro – e também de Rubem Fonseca -, o debate público brasileiro dedicou pouca atenção a autores que continuam extraordinariamente atuais. A estrutura analisada por Faoro não desapareceu. Apenas passou a operar por meio de instrumentos que ele não poderia conhecer – algoritmos, plataformas, microtargeting e inteligência artificial -, sem abandonar a lógica de concentração de potência que sua obra descreveu com notável precisão.

Faoro toma de Weber o conceito de estamento e o reconfigura para o Brasil. O estamento não é classe social – as classes negociam, os estamentos governam. É uma camada definida pela honra e pelo pertencimento a um grupo que se percebe qualificado para o exercício do poder. Seus membros pensam e agem sabendo que fazem parte do mesmo círculo elevado – e agem em consequência.

“O estamento supõe distância social e se esforça pela conquista de vantagens materiais e espirituais exclusivas. O fechamento da comunidade leva à apropriação de oportunidades econômicas, que........

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