menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Racismo à brasileira — Por Thais Cremasco e Pablo Juan

20 0
21.05.2026

Influenciadora brasileira publicou vídeo interpretado como associação racista entre negros e macacos.

Ela alegou não ter intenção de ofender, e a assessoria afirmou que o problema reside na percepção dos espectadores.

O estereótipo tem origem na ciência colonial dos séculos XVIII‑XIX, usado para justificar escravidão, segregação e ainda persiste em contextos atuais.

Autores apontam o caso como exemplo de “racismo sem nome próprio”, que se disfarça de brincadeira ou carinho, conforme estudos desde Florestan Fernandes.

Na semana em que Vini Jr. foi convocado para a Copa, poucos dias depois do fim de seu relacionamento com Virginia Fonseca — a maior influenciadora da América Latina —, ela publicou um vídeo beijando um macaco em Dubai e elogiando a “pegada” do animal. O timing é o que é. A associação entre pessoas negras e macacos não foi inventada ali: foi construída pela ciência colonial nos séculos XVIII e XIX, atravessou o tráfico atlântico, justificou a escravidão e a segregação, alimentou o cinema e segue ativa hoje em estádios europeus e em pátios de escola brasileiros. Ela não criou uma associação. Operou dentro de uma já estabelecida.

O que veio em seguida é o que interessa neste texto. A influenciadora declarou que jamais teve a intenção de ofender, que jurava por tudo que lhe era sagrado. A assessoria publicou nota oficial afirmando que o problema não estava no vídeo, e sim na cabeça de quem havia associado o vídeo a um ato racista. Boa parte do país concordou. Outra parte ficou num desconforto silencioso, sem conseguir formular exatamente por quê.

Escrevemos este texto juntos não porque um relacionamento interracial nos conceda autoridade moral sobre o racismo — não concede. Escrevemos porque o caso é um exemplo nítido de uma forma específica de racismo que o Brasil aperfeçoou ao longo de quase dois séculos: o racismo que opera sem assumir o nome próprio.

O racismo brasileiro quase nunca se declara.........

© Revista Fórum