Quando jornalistas se pretendiam revolucionários
Em 1967‑68 surgiu “O Sol”, jornal literário do Rio que foi citado na música “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso.
A fase áurea da imprensa alternativa começou com o humorístico Pasquim, fundado em 1968 em Ipanema (RJ).
Nos anos seguintes proliferaram dezenas de jornais regionais combativos – Opinião, Movimento, Varadouro, Coojornal, entre outros – com linhas ideológicas que iam do anarquismo ao feminismo e LGBTQ .
O movimento foi analisado no livro “Jornalistas & Revolucionários”, de Bernardo Kucinski (1991), que registra a história desses veículos.
Tabloide, na Inglaterra e alguns outros países, era sinônimo de jornal sensacionalista cheio de fofocas, manchetes apelativas e de conteúdo não confiável, por distorcer os fatos.
No Brasil, durante a ditadura, com a grande imprensa se calando (em alguns casos, era calada) diante dos abusos dos militares, da corrupção, da violência… Não dava para acreditar muito nela, em relação a certos assuntos. Havia alguns bons jornalistas neles, mas os donos faziam parte do sistema, se sujeitavam (ou eram sujeitados) ao que os milicos mandavam. Surgiram, então, vários jornais ditos alternativos, que não fingiam neutralidade, faziam oposição real à ditadura, denunciavam a tortura e as prisões arbitrárias, apoiavam as causas operárias, criticavam a política econômica… enfim, davam as notícias que a grande imprensa não dava, e tomavam posição.
Como quase todos os mais importantes jornais alternativos eram em formato tabloide, os jornalões falavam deles como “jornais nanicos”, em tom de desprezo, mas escondendo inveja. Que ironia! O Estado de S. Paulo, conhecido como Estadão tornou-se um nanico e a Folha de S.Paulo também!
Houve depois de 1964 uma imprensa alternativa de pouca duração. Pif-paf, editado por Millôr Fernandes, foi o jornal alternativo mais famoso, neste período inicial do pós-golpe e durou poucos números. Um mais literário, mais alternativo no sentido existencial, circulou no Rio de Janeiro em 1967 e 68, chamava-se “O Sol”, que mereceu citação numa das mais belas músicas de Caetano Veloso, “Alegria, Alegria”, mas a maioria das pessoas não sabia disso, pensava que ele se referia ao sol mesmo no trecho em que diz: “O Sol nas bancas de revistas / me enche de alegria e preguiça…”.
O começo da fase áurea da imprensa alternativa foi com o Pasquim, criado em 1968 e, segundo se diz, inicialmente despretensioso, meio voltado para o público de Ipanema, bairro do Rio de Janeiro cheio de intelectuais, humoristas, jornalistas… Era um jornal de humor, sim. Mas crítico também. Pegou bem, conseguiu leitores pelo Brasil inteiro. Em São Paulo, vi o número 2 nas bancas, comprei, li e fiquei encantado. Foi um jornal tão importante que influenciou toda a imprensa brasileira, mudou a linguagem.
Depois foram surgindo outros menos “de humor” e mais políticos no sentido tradicional, mas também com humor: Opinião (RJ), nacionalista de esquerda (embora fundando por um empresário, Fernando Gasparian); Movimento (SP), liderado por Raimundo Pereira, que já nasceu sob censura, fundado por dissidentes do Opinião, com militantes de esquerda… E assim foi indo, foram surgindo jornais alternativos combativos em quase todos os estados, como o Varadouro (Acre), Posição (Espírito Santo), De Fato e Jornal dos Bairros (MG), Coojornal (RS), Versus e Em Tempo (SP), Chapada do Corisco (PI), Jornal da Amazônica (AM) etc. etc. e muitos etc. Tinha nas capitais e no interior também. Havia jornais com clara identidade ideológica, como o anarquista O Inimigo do Rei, os ligados a movimentos operários, como O Batente (Osasco-SP), feministas, Nós, Mulheres; Brasil Mulher e Mulherio; o de homossexuais, O Lampião da Esquina; o de lésbicas Chanacomchana…
Gosto de me lembrar de alguns com características bem próprias, como um da pequena cidade de São Gotardo (MG), chamado Paca, Tatu Cotia Não. Em 1964, o dono de uma enorme fazenda do município ficou contra o golpe e logo veio a rebordosa: o governo Castello Branco, defensor dos latifúndios, resolveu fazer a reforma agrária num único e exclusivo lugar: na fazenda do latifundiário que se opunha à ditadura.
Mas a reforma agrária dele não tinha nada que merecesse esse nome: entregou a fazenda à Cooperativa Agrícola de Cotia, de São Paulo, como se isso fosse reforma agrária. Essa “cooperativa” merecia aspas: funcionava, a partir de certo momento, como uma grande empresa. Na fazenda que recebeu de mão beijada, os trabalhadores........
