Gambiarra
CONTEÚDO ENVOLVE CRÔNICA PESSOAL SOBRE O AUTOR
MENÇÃO A RECAPEAMENTO DE AVENIDAS POR PREFEITOS A CADA ELEIÇÃO
O que é o que é? Quanto mais a gente tira, maior ele fica?
Acertou quem respondeu buraco. Aliás, o DATACOSME, um conceituado instituto de pesquisas que inventei e me ajuda a sonhar, já indicava que 95% dos paulistanos sabiam a resposta.
Tenho meu palpite para toda essa sabedoria, mas antes te conto que descobri a resposta catando tatuís em Copacabana.
Meu pai, o Edgar, mexia os pés tamanho 41 na areia molhada, e de lá brotavam dezenas de miúdos crustáceos. Casca cinzenta, antenas agitadas e carne branca. Eu e meus irmãos sentávamos em torno do balde e catávamos um por um, sempre com cuidado para não quebrar a carapaça. A gente afundava o braço e sentia as cócegas que os bichinhos faziam em nossas mãos.
Quanto mais areia escavada, maior e mais profundo era o buraco.
Minha mãe, a Therezinha, preparava arroz de tatuí, omelete de tatuí, sopa de tatuí e, dependendo da quantidade, presenteava as vizinhas.
De volta à sabedoria paulistana. Nesse caso, a população chega à resposta pelo pior caminho possível: tropeçando nas armadilhas, quebrando a suspensão do carro, sacolejando ainda mais nos ônibus.
A cada eleição, prefeito ou prefeita, não importa o partido, faz um recapeamento nas avenidas mais movimentadas. Homens, máquinas, fumaça, barulho: é a “operação tapa buracos”, que podia ser a “operação tapar o sol com a peneira” ou “engana trouxa”. Porque em poucos meses, o prometido tapete afunda, racha, quebra.
Na Vila Buarque, acompanhei de perto nascimento, crescimento; e depois puberdade e amadurecimento de um buraco. E, em homenagem ao período da Páscoa, ele, o buraco, ressuscitou na Semana Santa.
Aos fatos. Nasceu na rua Martim Francisco, em horário incerto, em frente ao número 105, em dia de Carnaval. Começou como rachadura, que a gente da Vila ou o folião forasteiro nem percebeu. Parecia só mais uma das muitas falhas no asfalto, sobrecarregado com o peso do trânsito. Bastou a chuva folgada de dois dias e surgiu uma fenda, que cresceu tal qual valeta e virou buraco. Buraco mesmo. Grande, largo, fundo.
A prefeitura se limitou a colocar um cone na frente. O asfalto cedia, a água se infiltrava e o buracão já sonhava virar abismo.
Quando a prefeitura finalmente começou a trabalhar, descobriu que o buraco era mais embaixo: envolvia as entranhas de nosso escuro subsolo: galerias, encanamentos, cabos. Rua fechada, começava outra operação-tapa-buraco. Homens, máquinas, fumaça, barulho. Até um engenheiro apareceu.
Uma semana depois, a cova funda estava sepultada. Outra semana e adivinhe: ela se abriu novamente. E, mais uma vez, a rua foi fechada. Quanto custa a ladainha do abre e fecha? Os atrasos, o estresse, o sofrimento da cidade?
No meio da confusão, alguém fincou um cabo de vassoura no meio da terra fedorenta. O pedaço de madeira sustenta um pneu velho, onde foi colado um papel com a frase: “CUIDADO!! BURACO NA VIA”.
Na ausência da administração pública, surge a gambiarra.
O buraco virou notícia e apareceu na TV. Já a manchete em uma rádio, me disseram, foi mais ou menos assim: “Cratera de Santa Cecília se agiganta e desafia autoridades”.
Jornalismo e buracos nunca viveram em harmonia. Quando uma notícia tem pouca importância, os repórteres protestam: “fazer essa matéria, é pior do que noticiar buraco de rua”. Querem dizer que o assunto é tão banal e óbvio quanto a existência dos buracos.
Porém, os rasos buraquinhos de antigamente não param de crescer e dragam até a nossa segurança. Na rua da Consolação houve uma explosão subterrânea que mandou pelos ares asfalto, pedaços de calçada, cascalho. Passassem carros ou pessoas na hora, seria mais uma tragédia urbana.
Em Higienópolis, uma Tipuana com mais de século despencou, devastou a calçada e até hoje, dois meses depois, o pedestre não tem como passar. Contei este episódio aqui, na crônica “Ascensão e queda”.
Enquanto escrevo e você me lê surgem novas frestas e rachaduras. É a cidade sendo comida pelas beiradas e tratada à base de gambiarras.
*Luis Cosme Pinto é autor do livro de crônicas “Acabou, mas continua”, da Cachalote.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
