Byung-Chul Han e o neoliberalismo digital como atalho autoritário
Nascido na Coreia do Sul em 1959 e radicado na Alemanha, Byung-Chul Han se tornou um dos intérpretes mais contundentes do nosso tempo. Seu percurso tem algo de parábola: para seguir a vocação filosófica, contou aos pais que estudaria metalurgia. O detalhe biográfico, porém, é menos folclórico do que parece — ele já anuncia uma época em que até a vida interior precisa se justificar em linguagem útil, técnica, “produtiva”. Entre aplausos e irritações tanto à esquerda quanto à direita, Han ganhou centralidade ao nomear aquilo que muita gente sente sem conseguir articular: a exaustão como forma de governo.
Seu pensamento ilumina um paradoxo do século XXI: como uma sociedade que se autoproclama livre, conectada e informada pode regredir a fantasias autoritárias, xenófobas e violentas. O diagnóstico é duro, mas necessário. O neoliberalismo digital não apenas nos adoece; ele corrói as condições afetivas e simbólicas que sustentam a democracia. Sem laços, sem tempo e sem alteridade, o espaço público deixa de ser arena de deliberação e vira ringue de ressentimentos.
A chave de Han é a passagem da antiga “sociedade disciplinar” para a sociedade do desempenho. Se antes a coerção vinha de fora (o supervisor, a norma, a punição), agora ela se instala por dentro: cada um deve ser “empreendedor de si”. A exploração ganha o rosto sedutor da autonomia. E, quando os padrões irreais de sucesso, beleza e produtividade — amplificados pelas redes — não são alcançados, o fracasso não é lido como sintoma estrutural, mas como culpa íntima. Não se acusa o sistema; acusa-se a própria insuficiência.
Daí emerge uma população deprimida, isolada, ansiosa. E o cansaço tem efeitos políticos: ele reduz a capacidade de escuta e empatia. Amar e fazer política exigem a presença do outro como outro — não como vitrine, produto ou adversário a........
