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Uma luta que continua

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01.03.2026

O desfecho do julgamento, no STF, do caso de Marielle Franco e Anderson Gomes faz justiça e condena de forma exemplar os envolvidos nos assassinatos.

O julgamento, iniciado na terça-feira (24), foi concluído na quarta (25), com a condenação de todos os réus por unanimidade. Domingos e Francisco Brazão foram punidos por organização criminosa armada, dois homicídios qualificados e um homicídio qualificado tentado.

Cada um dos irmãos Brazão, os mandantes do crime, pegou pena de 76 anos e três meses de reclusão (regime inicial fechado) e 200 dias-multa (cada dia-multa no valor de dois salários-mínimos à época dos fatos).

O assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes, em março de 2018, vai muito além da interrupção brutal de suas vidas.

Marielle transformou sua trajetória de mulher negra, cria da Maré, socióloga, defensora incansável dos direitos humanos, em instrumento de luta por aquelas e aqueles desamparados pelo Estado.

Amiga e companheira de PSOL, como vereadora Marielle denunciava a violência policial, o racismo estrutural, as milícias e todas as formas de opressão que insistem em marcar a história brasileira. Sua atuação política corajosa era enraizada na vida real: nas dores e nas esperanças de quem quase nunca tem voz.

O atentado contra sua vida foi também um recado contra a democracia: quando se atinge uma representante eleita pelo povo, atinge-se o próprio Estado Democrático de Direito.

A comoção que se seguiu ao seu assassinato, porém, mostrou que a tentativa violenta de silenciamento fracassou. Nesses oito anos de busca pelos criminosos, milhares de pessoas foram às ruas, no Brasil e no mundo, repetindo o nome de Marielle como um grito coletivo por justiça e memória.

A condenação dos responsáveis pelo crime representa um passo muito importante contra a impunidade, ainda que jamais repare a ausência. Não devolve as vidas ceifadas, mas reafirma que a barbárie e o medo não podem prevalecer sobre a democracia e a esperança.

Marielle permanece como símbolo político e humano: de resistência, de enfrentamento às milícias, de compromisso radical com os direitos humanos. Sua presença segue viva, mesmo diante de tanto ódio, como exemplo de que é preciso lutar por mais democracia, com coragem, sempre, como ela fez até o seu último dia.

*Chico Alencar é professor de História, escritor e deputado federal eleito pelo PSOL-RJ.


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