Uma razão por residência
Acordou com o rádio-relógio tocando o hino nacional. Não era o despertador que ele tinha programado. Era o hino mesmo, em versão estendida, com uma estrofe nova que ninguém lhe ensinara e que parecia ter sido escrita por alguém com muita pressa e pouco ouvido.
— Bom dia, cidadão — disse a esposa, da porta.
— Que uniforme é esse, Marta?
— Do condomínio. Saiu no decreto de ontem à noite. Todos os condomínios agora têm um uniforme e um síndico militar.
— Ontem eu dormi cedo.
— Todo mundo dormiu cedo. Foi o toque de recolher das nove.
Ele foi até a cozinha e tentou fazer café. O pó estava lacrado com uma fita onde se lia “Propriedade da Nação”. Havia um formulário preso na geladeira para requerer o direito de abri-lo. Para obter o formulário, era preciso outro formulário, disponível apenas na repartição, que só abria às terças, e só para quem tivesse o formulário.
— Isso é burocracia — disse ele.
— Mas ele prometeu acabar com a........
