Córdova: metáfora de uma utopia
(Re)incendiado em outubro de 2023, o Médio Oriente, uma eterna e sangrenta encruzilhada de civilizações, povos, religiões e países inimigos, é agora palco de um conflito regionalizado e potencialmente globalizado por causa do presente e do futuro do xiismo iraniano perante os Estados Unidos da América, Israel e outros.
A guerra lançada por Trump e Netanyahu há doze dias tem uma tripla dimensão militar, geoestratégica e ideológica, assumindo, neste último ângulo, um carácter de luta religiosa do cristianismo “ultra” e do judaísmo ortodoxo contra o islamismo fundamentalista. Se John Lennon ainda fosse vivo, pediria que imaginássemos um mundo sem Céu ou Inferno, sem Países nem Religião. É um simplismo impossível, porque o mundo terreno não é feito de anjos; mas não é uma utopia inútil, se se quiser procurar o que pode aproximar, e não dividir, os filhos de diferentes Deuses. Afinal, um cristão na Igreja, um muçulmano na Mesquita e um Judeu na Sinagoga ali irão, em espaços diferentes, para fazer teologicamente o mesmo: orar, agradecer, pedir, recolher-se à guarda do seu particular Deus, que os três reconhecem como guia na essencial parecença entre as três religiões monoteístas do Livro. Se ao menos os líderes políticos dessas comunidades civilizacionais tivessem esta similitude em mente, talvez o que por agora os faz contar mísseis não escalasse até à guerra que está a golpear ainda mais a já fragilizada ordem internacional, e evitasse que incautos com poder, em Washington ou Teerão, falassem de forma leviana de “cruzada” ou de “jihad”.
Pode o que é comum nas religiões desescalar o que é divisivo na política e na geoestratégia? Vamos imaginar que sim. Uma das metáforas ou símbolos monumentais dessa (talvez) irrealizável utopia é a Mesquita-Catedral de Córdova, no sul de Espanha, um Património Mundial da UNESCO, ela mesma situada a meros passos da antiga Sinagoga da cidade andaluza. Sobre as ruínas de uma Basílica paleocristã visigoda, Abd Al-Rahman I, o governador islâmico do Al-Andalus, ordenou, no final do século VIII d.C., que se erguesse uma imponente Mesquita, inspirada nas de Jerusalém e de Damasco. Quando Fernando III de Castela cristianizou Córdova, no século XIII, a Grande Mesquita - que chegou a ser a segunda maior do mundo muçulmano na época de ouro do Califado - foi consagrada como Catedral, com o título de Nossa Senhora da Assunção. Acrescentaram-se-lhe capelas cristãs, converteu-se o Minarete em Torre-Campanário e, no século XVI, no tempo de Carlos V, operou-se a sua transformação final, rasgando-se (e elevando-se para o céu) uma imponente nave central renascentista, com coro madeirado anexo, no coração da sala de orações da antiga Mesquita. O resultado é uma das mais espantosas e significativas hibridações arquitetónicas do mundo, onde o visitante transita da floresta de colunas e de arcos bicolores brancos e vermelhos da velha Mesquita para o altar, retábulo e capelas cristãs, num contínuo espacial que não choca, antes parece singularmente harmonioso.
A principal atração turística de Córdova é um edifício vivo, que conta a história da sucessiva estratificação de camadas de diferentes culturas e civilizações, cristã, muçulmana e de novo cristã (católica). Sim, é verdade que os mouros, tal como os judeus, terminaram expulsos da católica Espanha em 1492. No entanto, Carlos V, o “dono do mundo” na primeira metade do século XVI, teve a grandeza de não deixar que a Mesquita fosse destruída pelo triunfalismo cristão-católico. Permitiu, assim, que se eternizasse na pedra um precoce exemplo do que hoje se designa como “diálogo inter-religioso”. É pena que os donos, os perturbadores ou os vilões do mundo presente não tenham essa grandeza e prefiram a distopia da guerra à utopia do encontro.
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