Quando caminhamos a ritmos diferentes
Fui a primeira pessoa do grupo a abrandar.
Ainda estávamos longe dos 5.895 metros do ponto mais alto do Kilimanjaro quando percebi que já não conseguia acompanhar o ritmo dos outros. O grupo avançou. O meu marido ficou comigo. Caminhou mais devagar, puxou por mim e ajudou-me a concentrar no passo seguinte. Um elemento da organização e os guias acompanharam-nos também.
Na montanha, ouve-se muitas vezes uma expressão suaíli: pole pole. Devagar, devagar. À medida que ganhamos altitude e o oxigénio diminui, o corpo precisa de tempo para se adaptar. Mas pole pole acabou por ganhar, para mim, outro significado.
Caminhar com alguém implica aceitar que o ritmo dessa pessoa pode deixar de ser o nosso. Pode pedir-nos que abrandemos quando conseguiríamos avançar, que fiquemos durante algum tempo, que voltemos atrás ou que reconheçamos que pessoas que começam juntas podem não chegar ao mesmo lugar.
Ao longo daqueles dias, vi muitas formas de estar ao lado de alguém.
Num dos momentos de aclimatação, uma pessoa decidiu não acompanhar o grupo. Estava cansada, ficou a dormir e chegou a pensar que não queria prosseguir a expedição. Depois de descansar, reconsiderou e quis tentar. Algumas pessoas que já tinham feito aquela subida de manhã voltaram a percorrê-la à tarde para a acompanhar. A decisão de voltar a tentar foi dela. O grupo ajudou-a a concretizá-la.
No dia seguinte, fui novamente eu a ficar para trás. O caminho até Kibo, a 4.720 metros, levou-me a um estado de exaustão que nunca tinha experimentado. Quando finalmente cheguei, percebi que a minha subida terminava ali. O ataque ao cume começava poucas horas depois, mas o meu corpo tinha sido claro.
O meu marido, que tinha abrandado enquanto eu ainda queria continuar, partiu de madrugada com os restantes em direção ao cume. Ficar comigo quando eu precisava de apoio e continuar quando decidi parar foram, naquele contexto, duas formas de estar ao meu lado.
Horas depois, gravou-me um áudio........
