menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O que Demóstenes pode ensinar a Portugal sobre a democracia

15 0
12.10.2026

As democracias raramente morrem ao som dos tanques. Mais frequentemente, começam a enfraquecer enquanto as eleições continuam a realizar-se, os parlamentos permanecem em funcionamento e as constituições mantêm a sua autoridade. A primeira vítima é, muitas vezes, menos visível: os cidadãos deixam de acreditar que a política democrática é capaz de resolver os problemas comuns. O debate público polariza-se, o compromisso passa a ser visto como fraqueza e os slogans substituem gradualmente o argumento racional.

Leia os artigos que quiser, até ao fim.

Com uma assinatura PÚBLICO tem acesso ilimitado a todos os conteúdos e cancela quando quiser.

Portugal não está imune a esta transformação. Durante décadas, acreditou-se que a nossa democracia, consolidada após o 25 de Abril de 1974, estava relativamente protegida das correntes populistas que atravessavam outras sociedades ocidentais. A rápida ascensão do Chega revelou que essa confiança era excessiva.

Fenómenos semelhantes assumiram formas diferentes nos Estados Unidos, com Donald Trump, e no Brasil, com Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. As histórias nacionais são distintas, mas todas conduzem à mesma pergunta inquietante: por que chegam as democracias, repetidamente, a momentos de tão profunda insatisfação pública?

Há mais de vinte e três séculos, o orador ateniense Demóstenes (384-322 a.C.) colocou precisamente essa questão. É recordado sobretudo como o grande adversário de Filipe II da Macedónia, mas essa memória é incompleta. O verdadeiro tema da Primeira Filípica, da Terceira Filípica e de Sobre a Coroa não é a Macedónia. É Atenas.

Demóstenes insiste, vezes sem conta, numa ideia profundamente desconfortável: o maior perigo para uma democracia raramente nasce fora das suas fronteiras. A ambição de Filipe II era real, mas a complacência ateniense era ainda mais decisiva. Os cidadãos adiavam decisões difíceis, esperavam que outros resolvessem os problemas públicos e imaginavam que a liberdade democrática se........

© PÚBLICO