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Que nunca nos falte o afeto e a palavra escrita

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30.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Fiquei tanto tempo na escola que nunca me perguntei quanto tempo demora para uma pessoa ser alfabetizada. E se for um adulto? Dizem que demora mais. Dia desses, ouvi uma conversa informal num café que dizia que, nos dias de hoje, uma mulher adulta que ainda seja analfabeta, e que, portanto, não precisou desenvolver os recursos da escrita e da leitura até esta altura da vida, provavelmente, é cigana. Segundo a conversa, essa conclusão se apoiava na percepção de que os ciganos geralmente não sabem ler nem escrever.

Essa narrativa me sugeriu uma imagem tão alarmante que precisei checar a informação, apesar de ter encontrado menos dados recentes dentro deste recorte do que eu esperava, e ter descoberto que a não alfabetização em Portugal está majoritariamente concentrada nas regiões mais pobres do país e entre idosos (considerando que, antes do 25 de Abril, as taxas de não alfabetização do país estavam entre as altas baixas da Europa, em cerca de 25,6%, segundo o senso de 1970).

Nos dias atuais, a população cigana está estatisticamente enquadrada como de menor escolaridade, se comparada com a média nacional: segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) de 2024, 91,9% da população cigana não ultrapassa o 3º ano do ensino básico, e estudos anteriores indicam taxas de não alfabetização de 27,1%. Em contrapartida, a taxa absoluta nacional esteve em 3,08% (Senso de 2021), sem considerar recortes étnicos.

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Embora fundamentos estatísticos como esses possam enredar ou relativizar o que foi dito no café, o impacto imediato dessa narrativa no meu imaginário foi inegável. Isso me fez refletir sobre como afirmações semelhantes podem influenciar estereótipos atribuídos a outros grupos que coexistem no mesmo território, mesmo quando feito de forma não intencional. Não por acaso, também segundo o INE de 2024, cerca de 51,3% da população de etnia cigana já sofreram discriminação em Portugal.

Há também um componente de gênero na conversa que me despertou o interesse, já que abordava “ciganas”, no feminino: historicamente e por razões estruturais, de fato, a taxa de não alfabetização global sempre foi maior entre as mulheres do que entre os homens. Vale ressaltar que, durante séculos, o acesso à educação foi um privilégio das elites, sobretudo no caso das mulheres.

Em 1970, antes do 25 de Abril, quase uma a cada três mulheres em Portugal era não alfabetizada (31% da população feminina do país, segundo o INE daquele ano). Esses dados reforçam a necessidade de mitigar desigualdades históricas em relação às mulheres e à palavra escrita, como promover a leitura, a escrita e a publicação de mais autoras mulheres, sobretudo considerando marcadores interseccionais. Eles também apontam a correlação entre alfabetização e estruturas sociais.

Embora hoje as circunstâncias sejam outras, ainda há muitas barreiras que afastam adultos do letramento na palavra escrita. O perigo da lógica que não considera múltiplos fatores é transferir um problema estrutural, com raízes históricas bem definidas, para uma característica cultural ou étnica. O aumento das taxas de alfabetização em Portugal após o 25 de Abril (e de mulheres no mundo a partir do século XX) denota que a alfabetização é um substrato de um contexto, e não um mérito individual ou predisposição de um gênero ou de uma etnia.

Grandes fatores que afastam do letramento toda a sorte de populações que compõem os índices de não alfabetização no país estão ligados à pobreza (ou risco de pobreza) e à vergonha. Ou seja, combater a não alfabetização passa também por mitigar a pobreza (o tempo investido em estudo é um privilégio diante das necessidades de provisão não atendidas) e a vergonha do adulto não alfabetizado diante de sua condição.

A baixa escolaridade e a não alfabetização impedem que essas populações tenham acesso a posições profissionais mais qualificadas (tanto no que se refere a valores de ordenados quanto a empregos formais que ofereçam maior segurança e proteção legal ao trabalhador). Vale frisar que ter acesso ao estudo não se reduz a ter escola acessível, mas envolve também permitir as condições necessárias para que seu acesso seja sustentável.

Em conversa recente com um amigo que trabalha com prestação de assistência a grupos vulneráveis, chamou-me atenção um detalhe partilhado que foca nos adulto não alfabetizados (independentemente do gênero ou da etnia): ele percebia que as pessoas não sabiam ler nem escrever quando era necessário tomar nota de algo durante o atendimento, sobretudo em casos em que a informação era crucial para os seus próximos passos (como a partilha de um contato telefônico ou eletrônico), e se limitavam a escutar sem fazer anotações. Segundo ele, esses momentos envolviam reações de constrangimento, em que diziam preferir voltar em outro momento, desconversavam ou diziam terem esquecido os óculos.

Diante dessas situações, ele passou a tomar o papel e a caneta com o próprio punho e a escrever a informação para entregar em mãos. Esse gesto simples eliminava a carga de tensão nesses atendimentos. O agradeciam e conseguiam resolver o problema nas semanas seguintes. Mesmo que a pessoa não soubesse ler o que estava escrito, esse gesto permitia que ela saísse do atendimento com a informação necessária para posteriormente pedir ajuda a alguém de sua confiança, alguém com quem não sentisse constrangimento diante da própria limitação com a palavra escrita.

Esse gesto, por fim, me fez refletir que a empatia diante de um adulto que não teve acesso a esse tipo de letramento é mais importante do que qualquer classificação que o tipifique em um dos subgrupos que compõem as estatísticas nacionais de não alfabetização. Para um adulto não alfabetizado, muitas vezes, o constrangimento diante dessa falta atua como um fator de afastamento, que o mantém distante da palavra escrita e da sala de aula.

É necessário conscientizar tanto o poder público quanto a própria sociedade civil para que políticas públicas possam ser mobilizadas nesse sentido. Romper com o pacto de vergonha é também libertar a palavra. Que nunca nos falte o afeto. E a palavra. Que, quando partilhada, move todas as estruturas necessárias para construir uma sociedade mais digna, justa e potente.


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