A encruzilhada entre o sentir e o acontecimento
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Estive na abertura da décima edição do Festival Dias da Dança a assistir a Encruzilhada, do Balé da Cidade de São Paulo (BCSP), coreografada pelo Renan Martins, e pensei que não conseguiria trazer para o campo da palavra o que me foi atravessado neste acontecimento. A experiência de assistir a este espetáculo na cidade do Porto, deslocado de seu território de origem, transporta os nossos corpos migrantes pelos arquivos da nossa memória cultural partilhada, referências que constituem um Brasil contemporâneo que não aceita ser conformado em estereótipos.
Cheguei ao teatro Rivoli para a sessão com um amigo, também brasileiro, e logo nos deram a folha de sala. Ele olhou o verso da folha e disse: “Olha só! Temos um poema!”. Começou a falar em voz alta as palavras que estavam escritas e, logo nas primeiras linhas, reconheci o que quase toda criança que viveu no Brasil entre os anos de 1980 e 1990 não poderia ignorar.
Perguntei-lhe se não era familiar. Ele disse-me que não. De pronto, encarei o papel e encontrei o primeiro trecho, que me pus a ler com a melodia da Xuxa. Ele finalmente a reconheceu: Arco-íris. Ainda no saguão, cantarolamos baixinho o trecho, antes de entrarmos na fila para o espetáculo.
Já na sala, à medida que caminhávamos em direção aos nossos assentos, reconhecia no entorno rostos familiares, personagens da vida portuense. Pessoas que conheço, e também as que não conheço, mas que já vi por aí nesta cidade que nos leva a revisitar os mesmos lugares, com outros sujeitos e roupagens.
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A sensação de déjà-vu é constante. A cada canto, revejo rastros de conversas e de momentos partilhados com pessoas que ainda cá vivem ou que já aportaram em outro lugar. Afinal, a itinerância e a errância são espectáveis em sujeitos que cruzam as cidades portuárias.
Tal qual uma encruzilhada, que não é ponto de partida, mas de caminho e de encontro, o ir e vir faz parte dos portos, onde nem sempre se atraca para ficar. Ainda assim, a errância não anula a permanência do que é partilhado nos rituais do cotidiano e no que se daria em instantes à nossa frente.
Antes de baixarem as luzes, os dançarinos já estavam em cena. A maneira como os seus corpos ocupavam o espaço cênico, já nos primeiros momentos, marcava a heterogeneidade deste grupo de baile. O figurino também deixava pronunciada a potência da diferença em cena. Quando baixaram as luzes, o palco foi tomado por um movimento vivo e pulsante, com os corpos em diálogo e em constantes negociações entre individualidade e coletivo.
Mesmo quando em partituras corporais semelhantes, a maneira como cada corpo a expressava era única, o que dava ensejo a uma harmonia com concavidade, sem anulações dos integrantes para chegar ao uníssono da poética física. Em especial, o momento em que começaram a se dar as quedas, que me deixavam temerária por empatia aos dançarinos, mas que também me faziam revisitar no corpo a sensação física que se dá quando a frustração e a queda atravessam nossas experiências humanas de falha.
Ver o cair do outro era o espelho que me permitia revisitar o arquivo sensorial do meu corpo, e acessar como ele responde quando eu me sinto a fracassar. Ver a repetição desse gesto nos outros corpos em cena fazia-me pensar nas quedas que atravessam todos esses estranhos e conhecidos que compartilhavam a sala e o espetáculo desta sessão. Aceitar a queda como um fenômeno coletivo nos humanizava a todos e ia na direção contrária dos imperativos da sociedade do desempenho.
O conjunto das cores dos figurinos em movimento, da musicalidade percussiva e a surpresa ao reconhecer referências de vida na forma como os corpos se mexiam trazia-me de volta ao outro hemisfério. Nesses atravessamentos que moviam em mim o presente e o passado, o teatro Rivoli, durante a performance, tornou-se uma cápsula atemporal isenta de território fixo, em constante trânsito transatlântico. Senti meu corpo suspenso como se o teatro estivesse também suspenso, sobre esse mar entre continentes. Revisitei a sensação que temos quando estamos em voo, com o corpo que repousa sobre o assento, entretanto mais leve do que quando estamos aportados em terra.
O espetáculo me deslocou. Envolvida pela música, pelo pulso dos corpos e pela percussão, desfilei mais uma vez o olhar pelos rostos da plateia. O contraste ao reconhecer tanto do que é nosso em cena, a coexistir com os sujeitos deste canto do mundo, que são agora os do meu presente, finalmente me fazia sentir que a minha vida de antes, que eu já quase não mais lembrava, se integrava com o agora.
De certa forma, naquele instante, esses sujeitos eram também testemunhas anônimas de um passado que eu mesma aos poucos já esquecia e que a música, a coreografia e os corpos em dança reavivavam. Pelo menos durante o tempo da sessão, éramos um coletivo que se debruçava sobre uma mesma experiência estética, singular em cada corpo presente.
A performance moveu-me durante todo o tempo em que estivemos em sala e foi difícil parar quieta na cadeira diante de tamanha potência. O meu corpo não conseguia interromper a ressonância com a música e com os movimentos que via ganhar forma à minha frente, nos corpos dos bailarinos.
Certas partes do espetáculo, sobretudo nos momentos em que o corpo de baile se deslocava em coro, traziam-me a memória das noites de festa nos arredores da Praça de Tiradentes, nos tempos de faculdade e principalmente no pós-pandemia, quando tínhamos a urgência de viver o agora e o estar junto no analógico, nas celebrações que preparavam o nosso corpo para enfrentar um ano inteiro.
Quando finalmente a música da Xuxa costurou a cena, meu amigo e eu nos olhamos em cumplicidade e rimos, sem palavras, não só das memórias da infância, mas também do momento que partilhamos antes de entrarmos em sala. Ao final, quando as luzes acenderam e toda a plateia levantou-se para os aplausos, reconheci em filas mais adiante a presença das autoridades locais, que prestigiavam a performance e aclamavam a potência artística da nossa brasilidade.
Tive orgulho ao reconhecer em cena os nossos e tanto do que nos faz. Tive orgulho da pertença ao meu país. Percebi que o atravessamento do espetáculo foi também bioquímico. Cheguei à sessão cansada e saí de lá elétrica. O corpo, agora vibrante, apresentava-me uma sensação de torpor e de ressaca na carne. Ainda em vertigem, tive até dificuldade em balbuciar as primeiras frases quando começamos a deixar a sala.
Meu amigo, ao sair da nossa fila, tropeçou e quase perdeu os fones de ouvido depois que a caixinha se espatifou no chão. Cada auricular voou para baixo de assentos distintos, das filas ao lado. Uma senhora o ajudou a recolhê-los, enquanto eu me recompunha do que ainda reverberava, em contato com as sensações que aquilo que vimos acessou em mim.
Ao sairmos da sala, o assistente já estava a postos ao lado da porta, tal qual Exu que guarda a porteira e os caminhos, e nos disse: “há porto de honra a ser servido lá em cima”. Subimos. Brindamos à vida. Brindamos à vitalidade restituída aos nossos corpos. Laroyê Exu. O teatro Rivoli foi a encruzilhada que finalmente nos dava caminho de uma casa transatlântica.
