Primavera em Lisboa
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A chegada da primavera marca uma mudança perceptível na dinâmica de Lisboa. Com temperaturas mais quentes e o aumento das horas de luz, a cidade passa a ocupar mais intensamente seus espaços públicos.
Cafés e miradouros voltam a encher ao fim da tarde, e a vida ao ar livre ganha protagonismo — sem falar nos jacarandás, que, em breve, começam a imprimir novas cores a essa paleta natural.
É também nesse período que Lisboa evidencia uma de suas principais características: a relação com a água. Embora não seja banhada diretamente pelo mar, a cidade se abre para o Tejo, que, pela dimensão e tonalidade, pode facilmente confundir o olhar e remeter a um oceano imaginário.
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A presença do rio, somada ao clima ensolarado, contribui para aproximá-la de outras cidades costeiras, tanto na estética quanto no estilo de vida. A primeira que me vem à memória tem apelido de princesa e continua linda: o meu, o nosso, Rio de Janeiro.
Entre as comparações possíveis, o Rio surge como referência inevitável. As duas cidades compartilham características evidentes — a luz abundante, a proximidade com a água, a vocação para a vida ao ar livre e o apreço pela música, seja ela samba ou fado.
No entanto, diferem significativamente no ritmo. O Rio é intenso — na alegria e na tristeza. Um ritmo marcado por deslocamentos longos, muitas vezes, congestionados, e por situações que podem tirar a paz. Já Lisboa tem uma cadência mais contida.
Para quem já vivenciou a rotina carioca, essas diferenças saltam aos olhos. Percursos curtos, de poucos quilômetros, que, no Rio, podem facilmente se transformar em trajetos de quase uma hora, em Lisboa, tendem a ser mais previsíveis e menos desgastantes.
Quando ouço os portugueses reclamarem do trânsito, penso, inevitavelmente, que eles não sabem o que é um congestionamento de verdade.
A sensação de segurança é outro aspecto relevante. Em Lisboa, caminhar pelas ruas, inclusive em áreas menos movimentadas, costuma ser uma experiência de contemplação e beleza. Não é preciso estar atento ao celular, à bolsa ou a qualquer objeto que pareça ter valor. E isso, convenhamos, não tem preço.
Ainda assim, Lisboa e Rio podem ser vistas como cidades irmãs. Coloridas, luminosas, voltadas para a água e para a vida ao ar livre.
O Rio de Janeiro guarda a espontaneidade de quem transforma qualquer momento em música, como já dizia o clássico da Bossa Nova: “um cantinho, um violão, este amor, uma canção”. Lisboa, por sua vez, é mais reservada, mas encontra na sua arquitetura e nas ruas uma forma própria de expressão e alegria.
Fica, então, a sugestão para os próximos dias: subir e descer ladeiras, entrar nos becos, observar as fachadas, escolher um café com vista para o Tejo, e, sobretudo, desacelerar. A estação mais bonita e florida do ano já está nas ruas. Aprecie.
