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E o impacto simbólico das guerras nas pessoas?

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07.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Em agosto de 1990, fomos surpreendidos pela transmissão de uma guerra em tempo real. A Guerra do Golfo, em graduações de verdes, branco e preto, expunha os mísseis e as explosões nos canais televisivos de forma nunca vista. Imagens de guerra existem desde sempre nos telejornais, cinemas, banda desenhada. Antes disso, nos jornais impressos, revistas, fotografias, rádios, relatos e literatura e, na antiguidade, em pinturas e afrescos. A diferença foi a mudança da temporalidade do acontecimento: de algo posterior, noticiado para o acompanhamento simultâneo.

Lembro-me de as imagens do Golfo serem hipnóticas. O verde das lentes noturnas dava ao horror uma dimensão estranha à realidade. Tudo ali era verdadeiro, pois estava ao vivo. Era uma época, em que acreditávamos no ao vivo como não manipulável. Porém, nada nelas parecia real. A guerra passou, desde então, a ser um inesperado entretenimento visual, e o esverdeamento da realidade ganhou particularidade estética, um código de representação que segue até hoje para ambientar distopias em filmes de ficção.

Com a evolução dos equipamentos de transmissão, desde a operação Raposa do Deserto, no Iraque, ainda na década de 1990, passando em progressão pelas revoltas populares incitadas contra o regime, pela posterior invasão sob pretexto de ali haver armas de destruição em massa (nunca encontradas), pela queda e morte de Saddam Hussein e pelos primeiros anos da ocupação, as imagens chegaram em tons mais realistas. Na primeira década dos anos 2000, o esverdeamento distópico tinha dado lugar ao amarelamento da desertificação. Os tons ocres, dourados e castanhos se ainda não eram o real exato, eram, ao menos, mais aceitáveis como acontecimento simultâneo.

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Com as novas cores, ganhava-se a afirmação de dois elementos fundamentais à representação dos argumentos: a catarse do poder destrutivo tecnológico manifestado pelo fogo e a trágica dimensão humana dos corpos. A guerra, então, a partir da televisão e já dos sites e blogs, tornara-se uma narrativa próxima dos sofás, saltando um pouco mais para fora dos aparelhos.

A desertificação passou a ser tratada como vocabulário não apenas ecológico — quando os ambientes naturais perdem sua capacidade vegetativa —, mas metaforicamente trágico sobre formas de isolamentos físicos e emocionais. E, desde então, lidamos com os nossos chamados desertos........

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