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A tenaz que ameaça Montenegro

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26.02.2026

Há um espectro a pairar sobre o Governo de Montenegro, o espectro de Passos Coelho. Com o PS no prólogo de uma longa travessia do deserto, a esquerda à esquerda do PS rarefeita e a AD com uma minoria parlamentar curtíssima, a principal ameaça para o atual executivo vem de dentro. Passos Coelho já não o esconde e Montenegro sabe disso – como aliás mostra a solícita entrevista do número dois do Governo, Hugo Soares, ao PÚBLICO.

As circunstâncias são excêntricas, de tal modo que temos de recuar mais de 40 anos para termos um executivo ameaçado desde o interior do próprio partido. Em 1982, o primeiro-ministro Balsemão acabaria por demitir-se, sentindo-se traído pelos barões do PSD. O tempo agora é outro, os protagonistas têm menor envergadura e o contexto também se alterou, mas a situação pode mesmo evoluir.

Desde o início que Montenegro percebeu que não tinha maioria para de facto governar. Seguiu por isso o caminho alternativo: entrou em campanha eleitoral permanente, engonhou, geriu a folga orçamental que herdou para reforçar a sua maioria, numas eleições que sabia inevitáveis no curto prazo. Só que, em lugar de uma crise política como consequência de um chumbo orçamental que antecipava, teve contra si uma crise política como consequência de um caso pessoal. O desastre Spinumviva trouxe-lhe as eleições que desejava, mas num contexto que lhe limitou a capacidade de crescer eleitoralmente. Ao cataclismo do PS não correspondeu um reforço do PSD.

Agora, Montenegro está ameaçado por uma tenaz: de um lado, a ausência de uma maioria parlamentar para governar; de outro, a pressão para ter uma estratégia e o que, por facilitismo, chamamos ímpeto reformista. A ideia peregrina de seguir a tática do pisca-pisca, umas vezes legisla com o PS, outras com o Chega, tem servido para Montenegro sobreviver e ir enxameando o aparelho do Estado com os seus. É uma tática para exercer o poder, mas não para governar – embora seja o território onde a dupla Montenegro/Soares se move com astúcia. Será suficiente para se manterem à tona politicamente?

Passos Coelho, que nunca ultrapassou um duplo trauma – o de ter presidido a um governo nado-morto e de o diabo ter feito a desfeita de nunca ter aparecido aos seus anúncios –, leu agora bem as circunstâncias e recorda, dia sim, dia não, o óbvio. Este é um executivo paralisado e com todos os sinais de envelhecimento precoce. Sintomaticamente, passou a ser alvo quotidiano das “notícias” que tipicamente só assolam os governos em fim de ciclo: da assinatura da Sport TV aos gastos com cabeleireiras e maquilhadoras, passando por escrutínios disparatados de nomeações.

Como é que se sai daqui? Na verdade, não se vislumbra uma saída e a situação pode bem perpetuar-se, numa espécie de banho-maria, especialidade nacional também na política: o Governo vai fingindo que governa, a oposição indigna-se e os problemas são cuidadosamente empurrados com a barriga. Passos Coelho e os que o apoiam sabem que, no seu messianismo, ele é o único capaz de promover uma união das direitas e desbloquear o sistema político, ainda que com base numa plataforma programática contraditória. Para isso precisa, contudo, que a Spinumviva regresse (mais provável) ou que, no que seria uma decisão insólita, Montenegro saia, na sequência de um levantamento das bases do partido (muito pouco provável). Em qualquer dos casos, a “estratégia” do “não é não” seria definitivamente substituída pelo “sim é sim”. Talvez seja, afinal, uma questão de tempo.


© PÚBLICO