A decapitação ritual
Há em Portugal um desporto nacional mais antigo do que o futebol e bem mais popular do que a leitura: a caça ao ministro. Pratica-se todos os Verões, com a pontualidade de uma novena, e obedece a um ritual tão fixo que seria possível escrevê-lo com um ano de antecedência, sem grande risco de erro. Este ano coube a vez a Fernando Alexandre, que teve o desplante de tentar digitalizar a classificação dos exames nacionais – crime que em Portugal se paga caro: aqui, a novidade não tem direito a advogado.
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O ministro, é preciso dizê-lo, não ajudou a sua causa. Admitir publicamente que "o Estado falhou" é, no léxico da governação portuguesa, equivalente a confessar-se em praça pública antes do julgamento: poupa trabalho ao carrasco e dá-lhe, de mão beijada, o material da acusação. E convém não fingir que não há aqui matéria séria: a generalização da classificação digital avançou sem que o Governo tivesse sequer recebido o relatório do projecto-piloto; detectaram-se erros de parametrização em quatro disciplinas – Física e Química A, Geografia, História A e Português Língua Não Materna –, obrigando à emissão de novas pautas. Isto merece escrutínio – e provavelmente mais do que o escrutínio que teve antes de se avançar. Mas confundir a assunção de uma falha com sentença política já transitada em julgado é erro de principiante – e a nossa vida pública, que despreza a........
