menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Gaming como crise de meia-idade

21 0
08.04.2026

Não sei bem o que será a meia-idade nos dias de hoje, mas, como somos todos muito precoces, talvez seja mesmo aos quarenta. Nunca tinha pensado nisto até sentir os primeiros fenómenos. Dei por mim com 40 e poucos a concluir: na melhor das hipóteses, vivo outros 40. Enquanto a outros lhes pode ter dado para comprar carros descapotáveis, motas e essas coisas, a mim deu-me para o retrogaming e para coleccionar os jogos de mesa ainda mais obscuros.

Se antigamente era difícil ter todos os jogos, pois não havia disponibilidade financeira, hoje tenho mais condições. Menos tempo, mas o peso de comprar uma consola ou um jogo é menor, ainda que tenham aumentado de preço. Se antigamente era difícil comprar um jogo de tabuleiro de nicho, daqueles muito complexos, ou com aquelas miniaturas incríveis que demoravam meses a pintar, ou então aquele trading card game (TCG) que só existia no Japão, ou aquela carta que sempre nos escapava, agora tudo é mais fácil. A internet e ferramentas específicas permitem aceder aos produtos e às comunidades de hobby. Dei então por mim a comprar muitas consolas diferentes, desde as mais antigas e a arranjar ecrãs CRT para tirar o melhor partido delas e usar as lightguns (nostalgia das arcadas), mas também fui às mais recentes e aos sistemas VR da atualidade.

Continuo sem muito tempo para jogar, apesar de trabalhar em jogos de simulação todo o dia. Mas ter aqui disponíveis todos estes artefactos jogáveis rejuvenesce-me. Permite-me voltar a ser jovem e maravilhado pelo futuro. Desde o ano passado, tiro uns dias de férias só para explorar estas maravilhas antigas e mais recentes. Apesar de poder ser uma coisa dos novos velhos, isto tem sido também positivo na relação familiar, pois posso partilhar estas nostalgias e novidades com os meus miúdos.

Tentado colocar-me aqui em perspetiva, isto pode não dizer pouco à esmagadora maioria das pessoas. Provavelmente só diz aos geeks e nerds dos jogos, e só é verdadeiramente poderoso se pudermos fazer isto em comunidade. O que me tenho apercebido é que há mais geeks e nerds de meia-idade como eu que transformam estas crises em momentos de redescoberta e felicidade. Em jeito de brincadeira, especialmente quando estamos numa convenção nacional de jogos de tabuleiro modernos, é comum dizer que, quando formos todos velhinhos, temos de ir todos para um lar de idosos onde possamos estar todo o dia a explorar jogos de tabuleiro.

Sim, fica a dica, mas podemos alargar a outros jogos. Se combinarmos isso com exercícios físicos (que podem ser jogos também), temos aqui uma via para um envelhecimento mais ativo, sociável e saudável. Destas conversas destaco um detalhe importantíssimo, que é o de ver a velhice, esse momento em que temos mais tempo e menos atividade, de uma forma positiva, como uma oportunidade de fazermos atividades que nos apaixonam. Jogos como políticas públicas para o apoio ao envelhecimento mais digno, pensem nisso. Embora admita que este potencial seja maior na minha geração, pois sempre fomos gamers.

Em jeito de conclusão, como quem chega ao desafio final do jogo, aquilo que começou por parecer uma crise de meia-idade pode ser visto como um elixir da juventude. Já começaram a tomar o vosso?


© PÚBLICO