Miranda do Douro: Uma biografia sensorial
Antes de entrar no perímetro amuralhado do centro histórico de Miranda do Douro, pela Rua Mouzinho de Albuquerque, detenho-me diante da placa "Abenida de la Lhéngua Mirandesa", onde alguém colou um pequeno autocolante: "Yá nun hai miedo de falar – antoce, falai!". Parado junto à brecha da muralha medieval, repito em voz alta as frases escritas em mirandês, como se fossem a senha para passar.
Sinto-me observado. Estranho. As poucas pessoas com quem me cruzei nem sequer olharam para mim. Avanço pela calçada. Andorinhas esvoaçam à minha frente, por cima e por trás, como se me pedissem que levantasse os pés do chão para brincar com elas. Agito um braço no ar. As andorinhas parecem entender a minha limitação, mas também a vontade de brincar. Coincidência ou não, o chiar agudo e insistente intensifica-se, assim como o vaivém contínuo em torno do beirado forrado por uma dúzia de ninhos. Faço a fotografia e anoto: "Isto é o mais parecido que aqui encontro com o frenesim de uma grande cidade."
Um quarto para as dez da manhã. O silêncio de gente é quase total.
— Então, já morreu? —, pergunta uma senhora de muita idade, ao casal que sai de um carro.
O homem, na casa dos sessenta, responde tão baixinho que não percebo o que diz. O chiar das andorinhas também não ajuda.
— Já a trouxeram? —, insiste a mesma senhora, ajustando a voz ao ruído das aves.
— Estão a prepará-la —, responde a mulher do casal, em alto e bom som, com a solenidade que o momento exige.
"Prepará-la." Começamos a viagem sem preparação, terminamo-la a prepararem-nos. Se é isto assim, como é que não havia de haver tanta coisa de permeio que não faz sentido?
Afasto-me. Vida, tanta vida a das andorinhas. Voo rápido, pressa de alimentar os........
