O lugar do imigrante é onde ele quiser, inclusive na luta pela habitação
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Por vezes, e por vários fatores, a experiência migratória empurra as pessoas imigrantes para um lugar de dúvida, em que a própria identidade se confunde e onde nem sempre fica claro se estas devem ou não exigir direitos no país para onde foram viver. No meio de uma lista quase interminável de obrigações e burocracias a que estão subjugadas, é comum que aqueles que passam pela experiência migratória estranhem o lugar de sujeito ativo. Alguns levam tempo a descobrir que a existência das pessoas imigrantes em território português não está circunscrita apenas ao labor, a cuidar de idosos, a levantar paredes, a servir às mesas ou a atender doentes nos hospitais.
Ao fim de uma etapa de reencontro com a sua própria agenda, alguns encontram sentido em fazer parte das lutas e dos movimentos sociais que também os chama a agir através da reivindicação de direitos. Seja para obter um documento que regularize a sua situação no país, seja para arrendar uma casa ou para aceder a um crédito à habitação, torna-se claro que a presença dos imigrantes não pode ser meramente funcional mas também política e cidadã.
No que toca à comunidade com origem no Brasil, existe uma maior presença que se revela nos números da população e, consequentemente, nas ações reivindicativas. Um exemplo deste tema, foi noticiado em novembro de 2025: 75% das reclamações sobre a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) no Portal da Queixa têm origem em pessoas brasileiras.
Também, não raras vezes, encontramos pessoas brasileiras organizadas em coletivos, associações e partidos políticos. Nos processos eleitorais, também estão presentes. Provavelmente, o fator explicativo para este fenômeno é a língua comum, facilitadora da mobilização.
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No que toca ao tema da habitação, os imigrantes são hoje um dos grupos sociais mais afetados pelas decisões políticas neste tema. É verdade que a maioria da população em Portugal tem sentido cada vez mais o aperto da corda no pescoço para pagar as contas, sendo a habitação a maior fatia das despesas mensais. Contudo, os imigrantes enfrentam frequentemente situações muito mais severas.
A começar pelo racismo enraizado na sociedade portuguesa, onde a pronúncia pode ser determinante na dificuldade em conseguir uma habitação. Frequentemente, imigrantes passam pela experiência de sequer chegarem a ser considerados aptos para arrendar uma casa, sendo filtrados pelo sotaque.
Numa simples chamada telefônica para perguntar sobre a disponibilidade de um imóvel, são rapidamente descartados por imobiliárias ou proprietários que afirmam não arrendar a estrangeiros. Esta realidade foi observada e publicada pela Casa do Brasil de Lisboa no projeto Migra Myths.
Podemos assumir que estas desigualdades agravam-se ainda mais se falarmos de pessoas oriundas de países que têm sido particularmente estigmatizados por uma parte significativa da sociedade portuguesa. Refiro-me aos cidadãos de Paquistão, Índia e Bangladesh, sendo esses últimos, alvos de outdoors ofensivos e de teor racista, difundidos pelo partido de direita radical, presente no parlamento português.
Se os proprietários das habitações forem, por des’ventura’, opositores à imigração, provavelmente, terão enorme desconfiança em arrendar a habitação para uma família bengali, paquistanesa, são-tomense, brasileira. Alguns chegam ao último grau da hostilidade, não arrendando de todo as suas casas a pessoas imigrantes.
São também os imigrantes que mais frequentemente enfrentam exigências abusivas por parte daqueles senhorios que até arrendam, mas com o pé atrás. Para os inquilinos portugueses, é comum que os proprietários peçam uma ou duas cauções, já, para os imigrantes, há casos a quem foram exigidos meses e meses de caução, em habitações cujo valor ultrapassa facilmente os 800 euros mensais.
Toda esta realidade torna-se ainda mais dura se falarmos de famílias monoparentais, lideradas por mães imigrantes, sem companheiros para dividir o contrato de arrendamento, muitas delas oriundas de países ainda empobrecidos, nomeadamente, ex-colónias portuguesas, como São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola, entre outros.
É inegável que as condições econômicas têm causado para muitos grupos sociais, a impossibilidade de suportar os custos da habitação e, por essa razão, a realidade de várias pessoas que vieram viver para Portugal tem sido um verdadeiro inferno.
As estratégias para a sobrevivência têm passado pelos improvisos, desde a autoconstrução irregular ou a coabitação forçada com pessoas desconhecidas, numa vida sem privacidade. Todos os tipos de sacrifícios vão sendo feitos para que se consiga pagar as contas ao fim do mês.
Resta-nos, portanto, uma certeza: não podemos baixar os braços. Todos devemos comparecer às ações reivindicativas dos nossos direitos. E para que não fiquem dúvidas sobre os lugares que devemos ocupar: o lugar do imigrante é onde ele quiser, inclusive na luta pela habitação.
