O Coração Ainda Bate. Na construção
Em observação desanimada dos dias que correm, nunca o mundo me pareceu um lugar tão difícil e, no entanto, disposto a premiar os mais fáceis. É válido para tudo, mas hoje só quero falar do amor.
Talvez as pessoas se esqueçam de que o amor é uma construção que leva tempo, que conhece inúmeros obstáculos e provações. O amor é um exercício para fortes. O mais fácil é desertar.
É muito comum numa relação instalada termos saudades do frémito da paixão; é, aliás, vulgar esquecermo-nos de que somos corpos sedutores, com a sua própria linguagem, independentemente da forma ou do feitio. Mesmo na mais saudável e respirada relação, a sucessão dos dias em casa, na casa do amor, apaga o desejo. Do outro já conhecemos as reacções, antevemos certos amuos e quase antecipamos as surpresas. O amor também é esse mapear orgânico do outro; um estetoscópio que reconhece as batidas daquele coração. Diria até que o amor é um território que já conhecemos e onde queremos continuar, enquanto a paixão é uma aventura em campo desconhecido. Às vezes até artilhado. E, no entanto, vamos…
Não estamos inteiramente vivos se não amamos. Volto, vezes sem conta, à frase do filme “A Árvore da Vida” de Terrence Malick, “se não amares, a vida passa a correr”. É preciso ligarmo-nos ao outro, seja de que forma for: a mão que se estende, o olhar que entregamos ao outro, duas palavras ensaiadas, uma mensagem escrita. Se não nos ligarmos a ninguém, estamos desligados de nós próprios e do sentido da vida. Ninguém sobrevive sozinho: até o mais estóico dos náufragos precisa da salvação para lhe reconhecermos a prova de vida.
Volto ao início: o amor é uma construção. Sabemos quase tudo de cor em relação ao outro e não queremos mudar. Acostámos ali e ficamos em suspenso, como num fim de tarde de brisa morna num mar sem ondas; não há nada de novo ali e, no entanto, só queremos que aquele fim de tarde nunca mais acabe.
Lembro-me muitas vezes de um filme do francês Jacques Audiard, “Dheepan”, em que um homem, uma mulher e uma criança fogem do Sri Lanka, fingindo ser uma família. Vão parar aos subúrbios de Paris, onde tentam construir uma vida ensaiando ser uma família, apesar de serem três desconhecidos. Na rotina que estabelecem, os dois adultos descobrem o amor e o desejo, que já está longe de ser uma encenação. Não importa se o amor é uma forma de sobrevivência, porque é a mais forte e feliz de todas.
Escolhemos ficar ao lado de quem já estamos, apesar de o mundo ser composto de mudança. E quando digo que, depois de já estarmos instalados no amor, reconhecemos facilmente os passos do outro, há aqui quase uma arrogância; o amor não é destituído de arrogância: pensamos tudo saber e conhecer em relação ao outro e, no entanto, podemos ser surpreendidos de tantas formas. Se os dias são diferentes, nós também podemos ser diferentes como os dias.
O amor é uma construção porque aceitamos as diferenças que nos separam e nos mantêm unidos. O amor não deixa de ser uma construção quando ouvimos da boca de quem amamos uma opinião muito diferente da nossa e, depois de ter sido um ponto de fricção, passam a ser duas opiniões distintas.
Há muitas formas de construir um amor. É preciso querer muito e não ir embora quando o mundo lá fora nos engana com saídas fáceis.
O coração ainda bate.
