O Coração Ainda Bate. A ingenuidade megalómana
Eu sei que há amigos que ficam pelo caminho. Os anos passam e é possível que a mágoa cavalgue a sensatez e um dissabor momentâneo se agigante para explicar o sucedido. Todos temos dedos apontados sobre os nossos amigos, se quisermos. As falhas cercam-nos. É tão fácil gostar como pôr de lado. No fundo, a grande prova de amor é gostar acima de todas as falhas. É por isso que se chama amizade. Ou amor.
É possível que um estado geral de insatisfação colida com aquilo que reconhecemos como amizade. Porque, às vezes, os amigos estão bem, ou aparentemente bem, mas nós não. E é difícil ver com nitidez quando a angústia nos consome.
Não tenho queixas dos meus amigos que demorem mais do que um dia - umas horas até. O silêncio na amizade é uma arma letal. Tudo se dissolve quando falado. O que não se diz é capaz de ficar gravado em nós. E feridas antigas dificilmente cicatrizam.
Achei enternecedor quando, há dias, uma mulher, um pouco mais nova do que eu e com quem desenvolvi o esboço de uma amizade, me enviou uma mensagem perguntando se teria feito alguma coisa de errado porque nunca mais tínhamos estado juntas. Eu sorri e assumi a falha – a minha – de não mais ter dito nada. Mas, nesta voragem em que vivemos, muitas vezes o miolo dos dias deixa pouco espaço para os inícios se desenvolverem. É importante perguntar e é importante responder. Os equívocos são fáceis em tempos de dispersão.
Já aqui contei do meu reencontro com um amigo de longa data. Recentemente voltámos a estar juntos – e em força – e, a dada altura, ele perguntou: “mas afinal por que nos deixamos de falar?”. Nenhum de nós tinha a resposta ou as palavras exactas que pudessem justificar este longo hiato. Conhecemo-nos em 1996 e vivemos coisas magníficas. Um dia não estávamos presentes como antes. E qualquer fosso é megalómano: gosta de ficar maior. Quanto maior é o fosso, pior as palavras se ouvem. Caem sem fazer eco.
Há dias em que não gosto da idade que tenho porque o corpo acumula desgaste e dá-nos sinais terríveis, como se não o tivéssemos ouvido antes. Mas esta coisa boa, que conseguimos com os anos já vividos: não destacar a falha se o que nos une ao outro é tanto mais do que isso. Um amigo que nos fez rir a vida toda, e viveu as nossas dores como se fossem suas, falha uma vez e pomos a relação em causa? Não nos devemos avaliar a nós mesmos para perceber porque é que a falha nos afectou tanto?
Os amigos são para estimar e preservar. Se gostamos muito, simplesmente não cobramos. De vez em quando é importante abrir bem a boca para dizer alto que precisamos deles. Que coisa é esta a que chamamos orgulho e que se constrói à volta das emoções e nos impede de verbalizar o descontentamento momentâneo com alguém? Como é que a indústria farmacêutica ainda não inventou um medicamento que combata o orgulho? E afinal o que é isso do orgulho? Uma forma cobarde de evitar sentir? Quantas amizades não se perderam por causa dessa cobardia?
O meu reencontro com o meu amigo vale ouro. Há dias um outro amigo perguntou-me como se tinha dado a reaproximação e eu disse: “escrevi-lhe”. Tão simples não é?
Será que posso ser ingénua e megalómana ao mesmo tempo? Agora que penso nisto tenho a sensação de que todos os megalómanos são na verdade ingénuos. Gostava que mais uma crónica minha sobre amizade levasse alguém, agora, a escrever ou telefonar a um amigo perdido, sem que se saiba muito bem porquê. Ou, mesmo sabendo, que o tempo nos tenha ajudado a relativizar a falha ou a mágoa. A palavra mágoa é tão pesada como o sentimento. É bom arranjar um antídoto para acabar de vez com palavras e sentimentos que ocupam espaço desnecessário em nós. Talvez, vagando esse espaço, os amigos possam voltar a florescer na nossa vida.
O coração ainda bate.
