Não Somos Rivais: A Força de Mulheres Cis e Trans Juntas
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O Parlamento Europeu adotou recentemente uma resolução que apoia o reconhecimento pleno de mulheres trans como mulheres e a sua inclusão nas políticas de igualdade de género e combate à violência. Para muitas pessoas, esta decisão representa um avanço histórico. Para outras, levanta dúvidas e receios. Mas, para quem vive num corpo trans, este reconhecimento tem um significado profundo: é a validação da nossa identidade e da nossa humanidade.
É importante dizer com clareza: pessoas trans não querem tirar espaço de ninguém. Não é essa a nossa pauta, nunca foi. A nossa vivência e a nossa luta caminham em paralelo com a luta histórica das mulheres. Não somos rivais. Somos parte de uma realidade que também é atravessada pelo machismo, pela violência e pela invalidação.
As mulheres sempre foram a nossa maior referência de força e resistência. Admiramos a coragem de quem abriu caminhos antes de nós, de quem enfrentou séculos de silenciamento. Quando transitamos para o feminino, passamos a experimentar, muitas vezes de forma brutal, os preconceitos dirigidos às mulheres — e, além disso, carregamos também a transfobia. A discriminação soma-se. A violência multiplica-se.
Só quem vive numa identidade trans sabe o que significa ter o género constantemente questionado, a existência debatida, a dignidade colocada em votação. O reconhecimento institucional não resolve tudo, mas é um passo que retira um peso histórico das nossas costas. É libertador poder existir sem que a nossa identidade seja negada.
Há quem tente construir uma narrativa de rivalidade. A extrema-direita alimenta o medo, coloca-nos como ameaça, como se a igualdade fosse um jogo de soma zero. Não é. Direitos não se retiram — ampliam-se. A luta contra o patriarcado não se enfraquece quando se torna mais inclusiva; fortalece-se.
O problema nunca foi “as mulheres trans”. O problema sempre foi a estrutura que desvaloriza o feminino. Ser mulher ainda é, em muitos contextos, enfrentar desigualdade salarial, violência doméstica, assédio, invisibilidade política. Quando uma pessoa trans assume o feminino, passa também a carregar esse estigma. E isso revela algo essencial: a raiz da opressão é a mesma.
Não queremos ocupar o lugar de ninguém. Queremos ocupar o nosso próprio lugar — com dignidade. A mulheridade é ampla, diversa, plural. Há muitas formas de ser mulher. Reconhecer isso não apaga histórias; amplia horizontes.
Este 8 de Março teve, para muitas de nós, um sabor diferente. Um sabor de reconhecimento histórico. É apenas uma pequena parcela do que ainda precisamos conquistar, mas simboliza algo maior: a possibilidade de sonhar com um futuro mais justo.
Que possamos dar as mãos. Que mulheres cis e mulheres trans se reconheçam como aliadas. Se juntas somos mais fortes, unidas somos invencíveis. A nossa luta não é umas contra as outras — é contra a desigualdade, a violência e o preconceito.
Seguimos lutando. Seguimos resistindo. E, acima de tudo, seguimos acreditando que a fraternidade e o amor são forças revolucionárias.
Porque quando as lutas se encontram, ninguém perde. Todos avançamos.
