Ser mãe: a pressão social sobre uma escolha pessoal
No Dia da Mulher celebramos conquistas e direitos, e falamos de liberdade, igualdade e de caminhos diversos. Ainda assim, há uma pergunta que continua a ser dirigida a muitas mulheres, independentemente do contexto ou do percurso de vida: “Então, quando é que vais ser mãe?”
Parece uma pergunta simples, mas para muitas mulheres carrega expectativas e uma pressão silenciosa que se vai acumulando ao longo do tempo. A ideia de que a maternidade é um destino natural ou até obrigatório continua profundamente enraizada na nossa cultura. E isso tem impacto.
A pressão para a maternidade raramente vem de um único lugar, ela constrói-se de forma persistente e, muitas vezes, subtil ao longo do percurso da mulher. Surge na família, quando comentários repetidos transformam uma possibilidade numa expectativa; quando o corpo da mulher é constantemente associado à sua capacidade reprodutiva ou quando o silêncio ou a dúvida são interpretados como algo a corrigir.
Surge no trabalho, quando a maternidade é vista como uma interrupção ou uma limitação na carreira. Ou, paradoxalmente, quando a ausência de filhos levanta suspeitas sobre prioridades, disponibilidade ou escolhas pessoais. Surge também nas redes sociais, onde a maternidade é frequentemente romantizada, com imagens de realização plena, de amor absoluto e de sentido encontrado, e pouco se fala da ambivalência, da perda de identidade, do cansaço extremo ou do impacto emocional profundo que a maternidade pode trazer.
Surge ainda nos contextos de saúde, quando a pergunta “tem filhos?” vem acompanhada de pressupostos, quando a infertilidade é tratada como um problema a resolver rapidamente, ou quando a decisão de não ser mãe é recebida com estranheza ou desvalorização.
Tudo isto vai criando a narrativa de que ser mulher é ser mãe, uma pressão que tem custos emocionais reais. Muitas mulheres sentem culpa por não desejarem a maternidade e outras sentem ansiedade por desejarem, mas não estarem no “timing certo”. Há quem viva a dor da infertilidade em silêncio, sentindo-se falhada num corpo que parece não cumprir o que dele se espera, e há quem tenha sido mãe e, ainda assim, sinta que não corresponde ao ideal de “boa mãe”.
Quando a maternidade é apresentada como um marco identitário obrigatório, a mulher deixa de ser vista como um sujeito completo por si só. A identidade passa a estar condicionada a uma função. Isto fragiliza a autoestima, alimenta a comparação constante e dificulta o contacto com o que cada mulher realmente deseja. Do ponto de vista psicológico, esta pressão pode contribuir para sintomas de ansiedade, depressão, sentimento de inadequação e conflitos internos profundos. Especialmente quando existe uma discrepância entre o desejo pessoal e a expectativa externa.
Defender o direito à escolha não é desvalorizar a maternidade, é sim reconhecê-la como algo suficientemente sério, exigente e transformador para não ser imposto. Ser mãe pode ser uma experiência profundamente significativa, mas não é a única forma de realização feminina, nem deve ser vivida como resposta a uma exigência externa.
Cada mulher tem o direito de decidir se quer ou não ser mãe, quando e como. Esse direito inclui o tempo de não saber, de adiar, de mudar de ideias, de escolher outros caminhos de realização pessoal, afetiva, familiar. Inclui também o direito de viver a maternidade fora dos modelos idealizados.
No Dia da Mulher, falar de liberdade implica também libertar a maternidade da obrigação e as mulheres de um papel que não deve ser imposto, mas sim escolhido. Promover uma cultura de respeito passa por reconhecer que não há um único percurso válido, que não existem receitas para a felicidade ou para a realização pessoal e que ninguém pode escolher ou decidir por ninguém.
Conversas como estas têm surgido cada vez mais em espaços de reflexão pública, incluindo em projetos de partilha e diálogo como podcasts dedicados à saúde mental e às experiências femininas, onde a palavra ganha espaço e honestidade. No podcast “Não fica bem falar de não querer ser mãe” da Wells, eu, a Jessica Athayde e a Joana Gonçalves falamos precisamente sobre isto. Cada mulher tem o direito de decidir se quer ou não ser mãe, quando e como. Esse direito inclui o tempo de não saber, de adiar, de mudar de ideias, de escolher outros caminhos de realização pessoal, afetiva, familiar.
Pensar em conjunto, é também uma forma de cuidar e legitimar todas as escolhas, dando espaço a que as realidades que muitas vezes só nos chegam na privacidade do contexto clínico ganhem expressão. Ser mulher não é cumprir um guião, é poder escrever a própria história, em liberdade.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
