Quando todos falam ao mesmo tempo, ninguém ouve
Numa era profundamente marcada, dominada e, em muitos aspetos, corrompida pelo digital e tecnológico, nunca foi tão fácil ter uma voz; basta ir a uma rede social, escrever algumas palavras e, de imediato, falar para (quase) o mundo inteiro. À partida, poderia ser algo benéfico, positivo e manifestamente democrático, mas infelizmente (todos) sabemos que não e, cada vez mais, o ódio, a desinformação e a manipulação parecem prevalecer.
E ter voz não é o mesmo que ser ouvido — há uma clara diferença que premeia uns e que penaliza outros.
Diante de um espaço digital onde milhões de publicações surgem diariamente, muitas palavras desvanecem antes mesmo de encontrar quem as escute. Entre notificações, vídeos e um incessante fluxo de informação, as vozes acumulam-se, mas dissipam-se; entram, mas pouco perduram e, no final de contas, é o algoritmo perverso que vence. E, o resto reduz-se a um ruído longínquo, abafado e taciturno, carente de vozes que o oiçam.
É preciso competir por visibilidade; numa espécie de alimentação exacerbada duma lógica ultracapitalista que há tanto domina o mundo, onde os premiados ditam a agenda, e todos os outros servem apenas de penumbra.
E é talvez por isso que ter voz deixou de ser o desafio central. Hoje, o verdadeiro desafio pode ser outro— criar espaços onde ouvir seja novamente respeitado e apreciado.
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Aliado a isso, a facilidade com que falamos nem sempre se traduz numa atenção real e, muitas vezes, aquilo que mais facilmente é captado não são as reflexões, nem as ideias mais ponderadas e efetivamente transformadoras, mas sim as mais polémicas, medíocres, sensacionalistas e banais. Vemos constantemente isto a acontecer à nossa volta; o problema é que se calhar já nem pomos em causa.
Nesta conjuntura, o algoritmo e a visibilidade constituem as principais ferramentas de poder onde a promessa de uma esfera pública mais aberta, participativa e tolerante é amplamente quebrada e o ser ouvido é, muitas vezes, dependente de fatores que pouco têm que ver com a qualidade do que se diz.
Há, também, um paradoxo que não deixa de ser curioso: nunca falámos tanto, nunca foi tão fácil falar, mas muitas pessoas sentem que não estão a ser ouvidas, que ninguém está realmente lá para as ouvir. A atenção e a escuta passam a constituir recursos escassos. A rapidez com que reagimos dá cada vez menos margem para um escutar com atenção ou uma ponderação acerca do que o outro realmente diz, parece existir uma necessidade ou pressão constantes para responder de forma imediata, direta e precipitada, muitas vezes sem sequer dar lugar a uma compreensão ou reflexão a priori.
E é talvez por isso que ter voz deixou de ser o desafio central. Hoje, o verdadeiro desafio pode ser outro— criar espaços onde ouvir seja novamente respeitado e apreciado.
Muito importante, nada disto diminui a realidade de quem, em muitas partes do mundo, vê o direito à voz a ser abruptamente negado, silenciado pela guerra, pela repressão ou por desigualdades e injustiças. A reflexão aqui é outra. Mesmo em sociedades onde ter voz existe e a expressão parece amplamente garantida, permanece uma questão basilar: quem é realmente ouvido/a?
Porque numa sociedade onde todos falam e poucos escutam, o diálogo dissipa-se, transforma-se num mero eco de opiniões e pensamentos. E, sem escuta, não há espaço para um verdadeiro debate, para uma troca de ideias efetivamente enriquecedora e caímos, assim, numa enchente de vozes turbulentas que anseiam, em vão, ser ouvidas.
