Filas nos aeroportos vs. filas nos hospitais
Em Portugal, o tempo de espera tornou-se um reflexo revelador das prioridades públicas. Nos últimos meses, tem-se assistido a uma crescente preocupação com as filas nos aeroportos nacionais, onde, em determinados momentos, o controlo de fronteiras pode demorar entre uma a duas horas, podendo, em casos extremos, ultrapassar as três horas, algo que também ocorre noutros países sem grande dramatização.
O tema ganhou destaque, gerando indignação entre passageiros, companhias aéreas e operadores turísticos, alimentando intensa cobertura mediática e pressão política sobre a PSP e os polícias por respostas rápidas.
Ainda assim, há um contraste difícil de ignorar. Enquanto as filas nos aeroportos mobilizam atenção imediata, os tempos de espera nas urgências hospitalares, frequentemente entre oito e 12 horas, parecem ter sido aceites como normais. Tornaram-se parte do quotidiano, encarados com resignação por quem delas depende.
Importa, contudo, reconhecer que este problema, tal como o que se vive nos hospitais, não surge no vazio. Em ambos os casos, existe uma dificuldade crescente em recrutar e reter profissionais. As condições de atratividade nas forças de segurança e no setor da saúde têm-se revelado insuficientes, contribuindo para a escassez de polícias e profissionais de saúde. A este fator soma-se o aumento significativo do número de viajantes nas fronteiras portuguesas e o crescimento da população residente, em parte impulsionado por fluxos migratórios recentes, o que agrava ainda mais a pressão sobre serviços já fragilizados.
Esta discrepância levanta uma questão essencial: estaremos perante uma inversão de prioridades?
É evidente que aeroportos eficientes são importantes para a economia, o turismo e a imagem do país. Uma má experiência à chegada pode afetar a perceção externa. Contudo, quando comparado com o impacto direto na saúde e na vida dos cidadãos, este problema dificilmente deveria ocupar um lugar mais urgente e mediático do que o agravamento das dificuldades no funcionamento dos serviços de saúde.
Nos hospitais, o tempo de espera não é apenas desconforto, é risco. Pode significar agravamento de condições clínicas, sofrimento prolongado e, em casos extremos, consequências irreversíveis, incluindo a morte. Ainda assim, estas situações geram, paradoxalmente, menos indignação coletiva do que as filas nos aeroportos.
Num contexto de recursos limitados, as escolhas são inevitáveis e reveladoras. A saúde e o bem-estar dos cidadãos não podem ocupar um lugar secundário. Mais do que uma questão de gestão, trata-se de valores coletivos
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Parte desta diferença explica-se pela visibilidade. As filas aeroportuárias são mediáticas e amplamente partilhadas nas redes sociais e meios de comunicação social. Já as urgências hospitalares, embora afetem diariamente milhares de portugueses, permanecem mais silenciosas, diluídas numa perigosa normalização social, apenas beliscada quando ocorre uma morte.
Um país que reage com mais rapidez a atrasos na entrada de viajantes do que à demora no atendimento de doentes transmite uma mensagem clara sobre o que considera prioritário. Não se trata de desvalorizar os problemas nos aeroportos, mas de questionar o desequilíbrio na atenção e na resposta política.
Num contexto de recursos limitados, as escolhas são inevitáveis e reveladoras. A saúde e o bem-estar dos cidadãos não podem ocupar um lugar secundário. Mais do que uma questão de gestão, trata-se de valores coletivos.
Enquanto aceitarmos horas intermináveis nas urgências como inevitáveis, mas não tolerarmos esperas nos aeroportos, estaremos, ainda que de forma implícita, a inverter aquilo que realmente importa.
E essa escolha diz muito sobre o país que somos e sobre o país que queremos ser.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
