O neo-institucionalismo algorítmico e os modelos de linguagem da IA
Nos últimos 20 anos consolidou-se, progressivamente, uma visão cibernética e algorítmica da sociedade humana. Essa visão desenvolveu-se em interação crescente com uma tripla socialização por via do mercado, das redes sociais e das tecnologias digitais de interface cérebro-computacionais. A chegada dos modelos sofisticados de linguagem da inteligência artificial (IA), os Large Language Models (LLM), veio acelerar aquela visão cibernética e algorítmica da sociedade humana. Nesta sequência, a estreita associação entre o protocolo algorítmico e os modelos de linguagem veiculados e interpretados pela IA está na origem da grande corrente neo-institucional da sociedade do século XXI.
Nesta linha de pensamento, e a partir do conceito de institucionalismo algorítmico, os professores brasileiros Ricardo F. Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgílio Almeida (A política dos algoritmos, 2025, UBU editora) propõem-nos uma leitura dos algoritmos não apenas como ferramenta técnica, mas, sobretudo, como agentes normativos que, ao serem incorporados nas nossas rotinas quotidianas, exercem influência comparável aquela que é veiculada pelas instituições convencionais como tribunais, escolas, parlamentos e governos. Ou seja, os algoritmos não se reduzem a meras linhas de código informático, são, também, conjuntos de regras formais e informais que conformam e condicionam as interações humanas e influenciam os seus comportamentos com consequências para a estabilidade e segurança da esfera pública democrática.
No final do livro os autores sugerem, porventura, a questão mais inquietante de todas: se aceitarmos que os algoritmos desempenham um papel institucional, teremos de reconhecer que eles também podem reproduzir vieses, preconceitos e violência. Se assim for, eles podem criar vulnerabilidades, exclusões e desigualdades, ou seja, a institucionalização algorítmica é capaz de naturalizar estruturas de dominação com uma rapidez que nenhuma instituição tradicional seria capaz de igualar. Dito isto, o neo-institucionalismo algorítmico sugere que reconsideremos a nossa visão do mundo antes que ele se torne irreversível na direção de uma normatividade automatizada e invisível. De resto, o futuro institucional já aí está e é feito de códigos, dados, decisões automatizadas e disputas silenciosas.
Nesta mesma linha de pensamento, um artigo recente publicado no The Economist (27 de junho de 2026) veio mostrar-nos como diferentes modelos de linguagem têm respostas diferenciadas para o mesmo problema. Ou seja, para lá do protocolo algorítmico e das linhas de código existe uma retaguarda e um alinhamento de natureza cultural e política. Se quisermos, digamos que existe uma filosofia política e social, uma ideologia de programação, que o grupo de patronos do LLM e a equipa de programadores transferem para o modelo de linguagem que, assim, adquire alguns atributos de sensibilidade e inteligência emocional. Estes atributos não só integram as regras do protocolo algorítmico e as linhas de código como informam o treino e o deep learning........
