Luz, ecrãs e olhos cansados
Atravesso os corredores do centro comercial como um gato encadeado pelos faróis luminosos de um carro, que corre na direção do capot. Preciso de uns óculos de sol.
Apesar de já serem dez da noite, dentro do shopping é sempre dia, a luz branca brilha intensa e ininterrupta, artificial, distante da luz do sol, como se estivesse dentro de um enorme frigorifico carregado de guloseimas e formas apetecíveis e atraentes, que competem pela minha visão, pela minha gula, pela minha avidez. A Rihanna sorri cintilante como o ouro do seu novo colar, o Roger Federer mira-me com olhos de diamantes luminosos como o seu Rolex, os dentes da Julia Roberts brilham radiantes rodeados pelo rosto com retinol. “Engole-me!”, suplica o George Clooney de café na mão. “Devora-me!”, diz o Beckham de hambúrguer na boca... Uma orgia publicitária.
Sinto uma vontade incontrolável de adquirir todas as cores de batom da loja de maquilhagem onde o meu rosto se mostra pornograficamente pálido, desinteressante, apagado. Apresso-me como um alpinista desorientado com a claridade da neve, que teme ficar perdido, com medo de perder as pontas dos dedos, que correm o risco de ficar agarradas em todas as coisas expostas nas prateleiras; com medo de perder a cabeça e começar a precisar de tudo, quando só preciso de um par de óculos.
A luz fere-me, tenho a visão turva, o cérebro enevoado, fadiga extrema e........
