Coscuvilheiras, big data e inteligência artificial
— Cuidado está uma sanita no meio da rua!
Ela ri-se. Não sei se pelo insólito do corpo inútil de uma sanita largada no meio do passeio, se pelo meu grito como se ela não soubesse antes.
A cega na Penha de França, em Lisboa, sabe coisas inusitadas, coisas que mais ninguém sabe, coisas impróprias provavelmente — como as horas a que o amante da dona da frutaria bate com os nós dos dedos na janela do rés-do-chão para não tocar à campainha, ou da presença de uma latrina largada no meio da rua, que ninguém sabe como foi lá parar.
Ela sabe-se avisar pelos ouvidos. Afina o movimento como os morcegos que captam as distâncias na maneira como o som bate nas coisas, ou como um bailarino em palco que acerta com precisão a pausa de um compasso. Se fosse uma fadista de renome podia detetar com precisão de que fila exata da plateia provinha a chinfrineira de um telemóvel que desatasse a tocar no meio do espetáculo.
Parada na esquina da rua, a cega distingue o eco de uns passos trémulos que recuam medrosos, a guinada súbita de dois calcanhares que evitam um encontro constrangedor, ou as intenções hostis de uma passada forte, talvez antes até dos pés se moverem. E à minha frente, desvia-se milimetricamente da sanita que parece ter sido largada de uma nave espacial por engano, sem usar a bengala de sinalização nem cão guia, para depois, no preciso momento em que se cruzou comigo, sorrir como se me piscasse o olho, debaixo dos dois olhos definitivamente encerrados, e seguir pela rua fora, ligeira e previdente a atravessar a estrada, sem olhar para os dois lados.
Retorno o rosto ao telemóvel, embaraçada pelo meu berro, enquanto me pergunto se ela não será uma versão muitíssimo sofisticada de Inteligência Artificial: uma Siri, uma Alexa ou uma Bixby disfarçada de velhinha simpática de saco de plástico na mão.
— Já viu isto? —, lançam duas vozes em coro sobre a minha cabeça, na direção da mulher. São as vozes do dueto de vizinhas, cada uma empoleirada na sua janela do prédio, que esclarecem o nome da velhinha, como se adivinhassem o meu pensamento (como o Google quando digitamos uma palavra, e ele trata de concluir a frase...)
— … Dona Ludmila? Uma sanita no meio da rua?
Também já as conheço de vista, são presença assídua na........
